Evento teria comemorado 19 anos de domínio do TCP no Complexo de Israel, reuniu multidão na Zona Norte do Rio e teve criminosos exibindo armas de guerra durante shows de funk.
Ana Beatriz Silva Publicado em 13/07/2026, às 20h03
A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga uma festa realizada no último sábado, 11 de julho, em Vigário Geral, na Zona Norte da capital fluminense, após vídeos que circulam nas redes sociais mostrarem homens armados com fuzis em meio ao público. Nas imagens, criminosos aparecem apontando armas de guerra para o alto enquanto apresentações musicais acontecem em um palco montado na comunidade.
Segundo as investigações, o evento teria sido organizado para celebrar os 19 anos de domínio da facção Terceiro Comando Puro, o TCP, no chamado Complexo de Israel. A região reúne comunidades como Vigário Geral, Parada de Lucas, Cidade Alta, Cinco Bocas e Pica-Pau, áreas da Zona Norte do Rio marcadas pela presença armada da facção e por disputas territoriais do crime organizado.
A festa reuniu uma multidão e contou com apresentações de artistas e grupos musicais, entre eles o rapper MC Chefin e o grupo Tá Na Mente. Até o momento, não há informação de que os artistas tenham relação com a organização do evento ou com as atividades criminosas investigadas. A apuração policial mira, principalmente, a estrutura montada para a celebração, a presença ostensiva de homens armados e a possível participação de lideranças do tráfico.
A principal suspeita é de que a festa tenha sido financiada por Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão. Ele é apontado como chefe do TCP no Complexo de Israel e um dos criminosos mais procurados do Rio de Janeiro. Conforme as investigações citadas pela coluna Mirelle Pinheiro, do Metrópoles, Peixão também teria circulado pelo local cercado por integrantes armados da facção.
Peixão está foragido da Justiça e acumula 20 mandados de prisão em aberto, incluindo um por terrorismo. Ele também responde por crimes como tráfico de drogas, homicídios, tortura, ocultação de cadáver, extorsão, intolerância religiosa e porte ilegal de arma de fogo. Apesar de ter 79 anotações criminais, o traficante nunca foi preso, segundo informações divulgadas pela imprensa e por investigações policiais.
A atuação de Peixão no Complexo de Israel é investigada há anos pelas forças de segurança. Ele é apontado como líder de uma estrutura criminosa que combina domínio territorial, controle armado, imposição de regras à população local e perseguição religiosa. Reportagens anteriores também associaram o grupo à chamada lógica do narcopentecostalismo, fenômeno em que facções criminosas misturam poder armado, simbologia religiosa e controle social em áreas sob domínio do tráfico.
A exibição de fuzis em uma festa pública reacendeu o alerta sobre a capacidade de mobilização e intimidação de facções criminosas em comunidades do Rio. O caso também amplia a pressão sobre as autoridades de segurança, já que o evento teria ocorrido com grande circulação de pessoas, apresentações musicais e forte presença armada, em uma área conhecida pela atuação do TCP.
Em nota enviada à coluna Mirelle Pinheiro, a Polícia Civil informou que atua diariamente no enfrentamento às facções criminosas por meio de investigações permanentes conduzidas por delegacias distritais e especializadas. A corporação afirmou ainda que o trabalho de inteligência é contínuo, estratégico e voltado à desarticulação das estruturas financeira, logística e operacional das organizações criminosas.
A Polícia Civil também declarou que suas ações são planejadas com base em critérios técnicos e investigativos, com foco na responsabilização criminal dos narcotraficantes e na preservação da segurança da população. A investigação deve apurar quem organizou o evento, quem financiou a estrutura, quais criminosos aparecem nas imagens e se Peixão esteve de fato no local.
O caso reforça a dimensão do desafio enfrentado pelas forças de segurança no Rio de Janeiro. Mais do que um baile com homens armados, a festa investigada é tratada como possível demonstração pública de poder de uma facção que tenta transformar domínio territorial em espetáculo, intimidação e propaganda criminosa.