A investigação aponta que a Conafer recebeu mais de R$ 100 milhões do INSS, levantando suspeitas de lavagem de dinheiro e fraudes em benefícios
Sabrina Oliveira Publicado em 14/05/2025, às 09h01
Nesta quarta-feira (14), a Polícia Federal deu continuidade à sua operação em combate a fraudes relacionadas a descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Esta ação representa a segunda fase da investigação, que já havia resultado em desdobramentos significativos.
De acordo com informações divulgadas pela PF, foram expedidos dois mandados de busca e apreensão na cidade de Presidente Prudente, no interior de São Paulo. A autorização para essa operação partiu da Justiça Federal, com sede no Distrito Federal.
Em abril, durante a primeira fase da Operação Sem Desconto, o cenário político sofreu mudanças drásticas, culminando na demissão do então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto. Outros cinco servidores também foram afastados. Como consequência, houve uma reestruturação na liderança do Ministério da Previdência, substituindo Carlos Lupi por Wolney Queiroz.
Os mandados executados nesta quarta-feira têm como alvos principais:
Cícero Marcelino de Souza Santos, assessor do presidente da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais do Brasil (Conafer), Carlos Roberto Ferreira Lopes;
Ingrid Pikinskeni Morais Santos, sócia e esposa de Cícero.
Fontes ligadas à TV Globo afirmam que esta nova fase é uma complementação da operação inicial realizada em abril. O intuito é identificar ativos que os envolvidos poderiam estar tentando esconder. Durante a ação, veículos pertencentes ao casal foram confiscados.
A PF aponta que uma "trilha financeira suspeita" está ligada à Conafer, que recebeu mais de R$ 100 milhões do Fundo do RGPS/INSS. Deste total, aproximadamente R$ 812 mil foram repassados a Carlos Roberto Ferreira Lopes, que posteriormente direcionou valores para Cícero Marcelino e Ingrid Pikinskeni, além de algumas empresas vinculadas ao casal.
A análise realizada pela polícia indica que somas expressivas estão sendo transferidas diretamente pela Conafer para as contas de Cícero Marcelino e Ingrid Pikinskeni. Os investigadores sugerem que esse fluxo financeiro revela um esquema complexo de dispersão de recursos através de entidades e empresas associadas aos investigados. A origem desses valores levanta suspeitas sobre possíveis práticas de lavagem de dinheiro.
A operação também notificou mais de 9 milhões de possíveis vítimas dos descontos irregulares realizados por associações que oferecem serviços aos aposentados. As investigações revelaram que tais organizações cadastravam indivíduos sem autorização e utilizavam assinaturas falsificadas para efetuar descontos nos benefícios pagos pelo INSS.
O esquema fraudulento começou em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro, e continuou durante o atual mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Estima-se que o prejuízo total para os aposentados pode atingir R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.
Na fase anterior da operação, diversos bens valiosos foram apreendidos dos suspeitos, incluindo dinheiro em espécie, automóveis luxuosos como uma Ferrari, joias e obras de arte. Além disso, a Polícia Federal identificou o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes - conhecido como Careca do INSS - como o principal articulador do esquema. Até o momento, ele não foi detido.