Intolerância religiosa

Polícia Civil indicia pai de aluna por intolerância religiosa após denúncia em escola infantil de SP

Homem acionou a PM após filha fazer desenho sobre Iansã; presença de 12 policiais armados em escola causou medo e revolta na comunidade escolar

Moradores criticam a interpretação da atividade escolar e defendem uma educação inclusiva e livre de preconceitos - Imagem: Reprodução/Google Street View

Letícia Sales Publicado em 05/03/2026, às 13h12

A Polícia Civil de São Paulo indiciou por intolerância religiosa o pai de uma aluna que acionou a Polícia Militar do Estado de São Paulo após a filha fazer um desenho sobre Iansã em uma escola infantil na zona oeste da capital. O caso ocorreu em 11 de novembro, na Escola Municipal de Educação Infantil Antônio Bento.

Iansã é uma divindade cultuada em religiões de matriz africana, como Candomblé e Umbanda, conhecida como a orixá guerreira dos ventos, raios e tempestades. O tema fazia parte de uma atividade pedagógica relacionada à cultura afro-brasileira.

Na ocasião, 12 policiais armados foram até a escola após a denúncia feita pelo pai da estudante, que também é soldado da Polícia Militar. Um dos agentes portava uma metralhadora. Segundo o homem, a instituição estaria obrigando a filha a participar de uma “aula de religião africana”.

De acordo com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, o inquérito conduzido pelo 34º Distrito Policial da Vila Sônia foi concluído em fevereiro e encaminhado à Justiça. A defesa do investigado não foi localizada pela reportagem.

Já a atuação dos policiais que entraram armados na escola infantil segue sob análise em um Inquérito Policial Militar. Segundo a secretaria, as imagens das câmeras corporais estão sendo examinadas e os depoimentos dos envolvidos continuam sendo colhidos.

Comunidade relata constrangimento

Uma funcionária da escola, que preferiu não se identificar, afirmou que a presença dos policiais causou medo e constrangimento entre funcionários e familiares de alunos. Ela relatou ainda ter sido abordada e questionada pelos agentes durante cerca de 20 minutos.

A profissional contou que explicou aos policiais que a escola segue o currículo oficial da rede municipal. Segundo ela, a proposta pedagógica inclui conteúdos relacionados à cultura afro-brasileira dentro de um programa de educação antirracista.

A jornalista Ana Aragão, representante da Rede Butantã — grupo que reúne instituições e entidades da região — também criticou a forma como a ação ocorreu.

Quem assediou foi o próprio comandante de área da PM, lamentavelmente. O fato causou muita indignação em toda a região. O pai da aluna rasgou todos os desenhos que estavam no mural da escola, feitos pelos próprios alunos”, afirmou.

Ana participou da elaboração de um abaixo-assinado em apoio à escola e aos profissionais da unidade. No documento, moradores manifestam solidariedade aos educadores e expressam preocupação com o episódio.

O texto afirma que a escola cumpre seu papel pedagógico ao abordar diversidade cultural e formação cidadã. Os signatários também criticam a forma como a atividade escolar foi interpretada pelos agentes.

Repudiamos veementemente qualquer forma de intolerância religiosa, racismo ou discriminação, e defendemos o direito de todas as crianças a uma educação plural, inclusiva e livre de preconceitos”, diz o documento.
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