Narco Sky

PF aponta que apreensão de 500 kg de cocaína frustrou plano de traficante procurado pela Interpol

Investigação revela conexão entre traficantes internacionais e operadores brasileiros em esquema que utilizava aviões, veleiros e navios para enviar drogas à Europa

A PF identificou que Antun Mrdeza ocupava uma posição estratégica no tráfico, mantendo contato direto com líderes do narcotráfico internacional - Imagem: Reprodução

Letícia Sales Publicado em 06/06/2026, às 12h39

Uma apreensão de 500 quilos de cocaína realizada no interior de São Paulo, em 2020, interrompeu uma operação internacional de tráfico de drogas ligada a um dos criminosos mais procurados do mundo. A conclusão é da Polícia Federal (PF), que identificou a participação do sérvio Antun Mrdeza, conhecido pelos apelidos de Nikola Boro e Jhon Gotti, em um esquema de exportação de entorpecentes para a Europa.

O nome do traficante voltou ao centro das investigações após a deflagração da Operação Narco Sky, realizada na última terça-feira (3). Apesar de estar incluído na lista de difusão vermelha da Interpol, ele não foi localizado pelas autoridades.

Apreensão interrompeu rota internacional

De acordo com a PF, a carga foi interceptada em junho de 2020 após um avião bimotor ser monitorado pela Força Aérea Brasileira (FAB). A aeronave havia partido do Pará, feito uma parada para abastecimento no Mato Grosso e seguia para o interior paulista quando foi obrigada a pousar em Fernandópolis.

Durante a ação, dois ocupantes foram presos em flagrante e os 500 quilos de cocaína foram apreendidos.

As investigações apontam que a droga seria posteriormente enviada à Espanha por meio de uma complexa rede logística que combinava transporte aéreo e marítimo.

Conversas criptografadas revelaram o esquema

O elo entre a apreensão e os traficantes internacionais foi descoberto após a análise de mensagens obtidas em aparelhos ligados a Marco Aurélio de Souza, conhecido como Lelinho. Preso pela Polícia Federal em 2025, ele é apontado como um dos principais articuladores do tráfico internacional de drogas associado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segundo a PF, as conversas extraídas da plataforma criptografada Sky ECC mostram que Lelinho teria sido contratado por fornecedores internacionais para inserir a cocaína em uma embarcação que partiria do litoral brasileiro rumo à Europa.

"A análise das comunicações evidencia que a empreitada teve início com um planejamento mais amplo, no qual Lelinho foi contratado por fornecedores internacionais para inserir cerca de 500 kg de cocaína no navio Panorea, inicialmente fundeado no porto de Paranaguá/PR", afirma a Polícia Federal.

Ainda segundo os investigadores, a apreensão da carga provocou atrasos na operação e gerou conflitos internos entre integrantes da organização criminosa.

"Esse evento paralelo […] evidencia a conexão entre a remessa marítima e a utilização da aeronave PT-RAS como meio de transporte interno da droga, demonstrando a existência de uma cadeia logística integrada, envolvendo diferentes modais (aéreo e marítimo) para viabilizar o tráfico internacional", destacou a corporação.

Estrutura internacional

Para a Polícia Federal, Antun Mrdeza não atuava como um simples fornecedor, mas ocupava posição estratégica dentro da organização.

"Não se está diante de mero fornecedor periférico ou de interlocutor ocasional. Ao contrário, os elementos constantes do procedimento evidenciam que Antum Mrdeza integrava o núcleo estrangeiro de financiamento, direção e articulação de remessas internacionais de cocaína, mantendo interlocução direta com Lelinho para viabilizar operações marítimas de grande porte a partir do litoral brasileiro", afirma a investigação.

Os investigadores também ressaltam que Marco Aurélio de Souza mantinha contato direto com criminosos de alto escalão do narcotráfico internacional.

"A interlocução de Marco Aurélio de Souza não se dava com operadores secundários, mas com indivíduo que, segundo a própria investigação, se apresenta como 'mega narcotraficante internacional'", acrescenta a PF.

Esquema utilizava aeronaves, lanchas e veleiros

As apurações revelaram que a organização utilizava diversos meios de transporte para driblar a fiscalização. Após o transporte da droga por via aérea até regiões próximas ao litoral, a cocaína era levada para embarcações menores e posteriormente transferida para navios mercantes ou veleiros com destino à Europa.

Para esconder os entorpecentes, o grupo utilizava compartimentos internos de sistemas de refrigeração e outras áreas de difícil acesso. Equipamentos como GPS, boias de sustentação, bolsas estanques e lanternas de sinalização também faziam parte da operação.

A PF acredita que a estrutura montada por Lelinho permitiu o envio de toneladas de cocaína para países europeus nos últimos anos, tornando a Operação Narco Sky um dos desdobramentos mais relevantes das investigações sobre o tráfico internacional de drogas envolvendo organizações criminosas brasileiras.

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