A cooperação entre grupos criminosos é mais lucrativa do que a competição, mudando o panorama do tráfico no Brasil
Marina Milani Publicado em 30/03/2025, às 08h32
A crescente globalização das operações logísticas, impulsionada pelo aumento do comércio internacional formal, tem facilitado também a expansão das organizações criminosas. Este fenômeno é visível nas conexões estabelecidas entre grupos brasileiros e suas contrapartes na América Latina e na Europa.
Roberto Uchôa, pesquisador da Universidade de Coimbra e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirmou em entrevista ao Metrópoles que "a internacionalização não é um esforço isolado; ela demanda colaborações entre diferentes facções". Para exemplificar essa dinâmica, Uchôa destacou o Primeiro Comando da Capital (PCC), que se tornou um dos principais fornecedores de cocaína do Brasil para mercados europeus e africanos.
A influência do PCC no tráfico internacional se deve às suas alianças estratégicas com produtores de cocaína na Colômbia e na Bolívia, além de laços com máfias europeias, incluindo grupos italianos e balcânicos, responsáveis pela distribuição das substâncias ilícitas no continente europeu.
Adicionalmente, observou-se uma mudança na postura dos grupos criminosos, que têm optado por formar alianças em vez de perpetuar disputas internas. Um exemplo claro é a aproximação entre o PCC e o Comando Vermelho (CV), que tradicionalmente se enfrentavam. Recentemente, as duas facções supostamente firmaram um "acordo de paz", focando nos benefícios financeiros do tráfico internacional. Uchôa ressaltou que "a cooperação é mais lucrativa do que a competição por rotas e logística".
Um exemplo recente dessa colaboração foi a apreensão de 6,5 toneladas de cocaína em um narcossubmarino, que contava com tripulantes provenientes do Brasil, Colômbia e Espanha. Essa operação ilustra a natureza transnacional das atividades criminosas contemporâneas.
Uchôa observou ainda que o CV está seguindo os passos do PCC em sua busca por internacionalização. Nos anos 2000, o PCC travou conflitos intensos com facções rivais, especialmente com o CV, pela dominação do tráfico através do porto de Santos. O promotor Lincoln Gakiya havia comentado anteriormente que o controle sobre esse importante ponto logístico conferia uma vantagem competitiva à facção paulista. Contudo, a manutenção dessa dominância revelou-se desgastante diante da necessidade de confrontar outros grupos.
Essa nova aliança entre PCC e CV faz sentido econômico, segundo Uchôa. O mercado interno representa apenas 30% da receita do CV, que atualmente se beneficia mais através do controle territorial no Rio de Janeiro do que pela venda direta de cocaína. A facção carioca parece ter adotado estratégias similares às milícias locais, diversificando suas fontes de renda com serviços como venda ilegal de gás e internet.
O PCC também está priorizando o tráfico internacional via marítima e aérea, garantindo lucros estimados em bilhões. No porto de Santos, por exemplo, os ganhos anuais podem alcançar R$ 10 bilhões.
Um relatório recente da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre drogas revelou que o tráfico de cocaína atingiu níveis recordes devido ao aumento da demanda global. Até 2022, foram contabilizados 23 milhões de usuários da substância em todo o mundo e 2,7 mil toneladas foram produzidas, representando um crescimento de 20% em relação ao ano anterior.
A ONU advertiu que a elevação contínua na oferta e demanda por cocaína está associada a um aumento da violência e problemas de saúde nos países consumidores, especialmente na Europa Ocidental e Central.
Apesar das ações policiais globais contra o tráfico, as apreensões não têm impacto significativo nas finanças das organizações criminosas. Um estudo da Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas (Cicad) destacou que seriam necessárias apreensões superiores a 90% dos estoques das facções para causar danos relevantes ao tráfico.
Uchôa ainda enfatizou a existência de rotas altamente lucrativas com crescente demanda na Europa e África, além da potencial expansão para a Oceania, onde os preços das drogas podem ser até dez vezes maiores. Isso sugere que as estratégias atuais para combater essas organizações criminosas podem ser ineficazes, descritas por especialistas como "enxugar gelo".