Gaeco e Receita Federal cumprem mandados em quatro estados e investigam uso de fintechs, postos e empresas de fachada para movimentar recursos do crime organizado
Letícia Sales Publicado em 28/05/2026, às 08h58
Uma nova fase da Operação Carbono Oculto colocou empresários, operadores financeiros e empresas do setor de combustíveis no centro de uma investigação sobre lavagem de dinheiro supostamente ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A ofensiva foi deflagrada nesta quinta-feira (28) pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) em parceria com a Receita Federal.
Ao todo, foram cumpridos 55 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. Segundo os investigadores, a organização criminosa continuava movimentando milhões de reais mesmo após operações anteriores contra o grupo.
As apurações apontam que o esquema utilizava postos de combustíveis, fintechs e empresas de fachada para esconder recursos oriundos de adulteração de combustíveis, fraudes tributárias e outras atividades ilegais. De acordo com o Ministério Público, a estrutura financeira operava de maneira articulada para dificultar o rastreamento das movimentações bancárias.
Investigadores afirmam que diversos postos passaram a concentrar operações em poucas contas financeiras, criando uma espécie de rede integrada de movimentação de dinheiro. Em um dos casos analisados, dezenas de estabelecimentos teriam sido vinculados à mesma estrutura financeira.
A investigação também revelou que recursos eram transferidos constantemente entre fintechs e novas empresas abertas pelo grupo para substituir negócios já identificados em apurações anteriores. A estratégia, segundo o Gaeco, permitia manter o fluxo financeiro ativo mesmo após bloqueios e ações judiciais.
Outro foco da operação é um núcleo suspeito de desviar nafta petroquímica — substância derivada do petróleo — para abastecer esquemas de adulteração de combustíveis na Grande São Paulo. Conforme a investigação, empresas eram abertas em diferentes estados para simular compras legais de solventes usados posteriormente no mercado clandestino.
O Ministério Público também identificou o uso de laranjas para ocultar os verdadeiros responsáveis pelas empresas investigadas. Entre os nomes utilizados para registrar negócios estariam familiares, pessoas em situação de vulnerabilidade social e até detentos.
Segundo os investigadores, o grupo ainda utilizava fundos de investimento para ocultar patrimônio e mascarar os beneficiários das movimentações financeiras. Quatro fundos analisados durante a operação possuem patrimônio estimado em cerca de R$ 205 milhões, valor que teria crescido mais de 200% em pouco mais de um ano.
Para o Ministério Público, a nova fase da Carbono Oculto busca atingir não apenas os operadores do esquema, mas também toda a engrenagem financeira clandestina que sustentaria as atividades do crime organizado dentro do setor de combustíveis.
Entre os investigados apontados como líderes da estrutura estão Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”.