Donos da academia foram indiciados por homicídio com dolo eventual; polícia apura se manipulação inadequada de produtos liberou gases tóxicos que levaram à morte de professora de natação.
Ana Beatriz Publicado em 12/02/2026, às 21h25
Mensagens trocadas por aplicativo revelaram detalhes da rotina de manutenção da piscina de uma academia na Zona Leste de São Paulo, onde a professora de natação Juliana Bassetto, de 27 anos, morreu após passar mal durante uma aula. O material mostra que um dos sócios do estabelecimento orientava um funcionário sobre a aplicação de produtos químicos por meio do WhatsApp. Os três proprietários da academia foram indiciados por homicídio com dolo eventual.
De acordo com a investigação, as conversas ocorreram entre Celso Bertolo Cruz, sócio da academia C4 Gym e responsável técnico pela piscina, e o funcionário Severino José da Silva, que realizava a manipulação dos produtos químicos. Nas mensagens, Celso indicava quantidades a serem aplicadas na água com instruções curtas, como “Joga mais 6” e “Joga 2”, geralmente respondidas com confirmações do funcionário.
Segundo depoimento prestado à polícia, Celso afirmou que apagou as mensagens após tomar conhecimento da morte da aluna, alegando ter feito isso em estado de desespero. Ele declarou ainda que a comunicação tratava de orientações rotineiras sobre medidas e dosagens de cloro.
As investigações apontam que Severino exercia a função sem qualificação técnica formal, recebendo orientações diretamente do sócio da academia. A principal linha investigativa considera que a manipulação inadequada de produtos químicos em um ambiente fechado e com pouca ventilação pode ter provocado a liberação de gases tóxicos, levando alunos a passarem mal e resultando na morte da professora.
Imagens do circuito interno da academia mostram o momento em que o funcionário manipulava os produtos químicos pouco antes do início das aulas. Durante o preparo das substâncias, uma fumaça branca teria sido liberada próxima à piscina, onde Juliana e o marido estavam nadando.
Em depoimento, Celso afirmou possuir certificação para manutenção de piscinas desde 2023. Segundo ele, o curso permite supervisionar terceiros na execução do serviço, mas não autoriza a formação de profissionais da área. Os outros dois sócios do estabelecimento, Cesar Bertolo Cruz e Cezar Miquelof Terração, responsáveis pela gestão administrativa e comercial, confirmaram que Severino foi treinado pelo próprio Celso para exercer a função.
O sócio declarou ainda que, antes de obter certificação, ele próprio realizava a aplicação dos produtos químicos, e que posteriormente passou a supervisionar o funcionário. Ele também afirmou considerar a piscina segura, destacando que seus próprios filhos frequentavam aulas de natação no local.
Apesar disso, Celso confirmou à polícia um episódio anterior, ocorrido no início de 2025, quando a piscina apresentou uma grande quantidade de espuma e turbidez na água, levando à suspensão das aulas. Na ocasião, a academia contratou uma empresa especializada para resolver o problema, mas optou por não manter o contrato posteriormente.
Segundo o depoimento, o cloro utilizado era armazenado de duas formas: diluído em um recipiente ou em pó, na embalagem original.
A Polícia Civil solicitou a prisão dos três sócios, pedido que ainda está sob análise da Justiça. O caso segue em investigação.