Investigação revelou que o grupo utilizava empresas fictícias e indústrias químicas para misturar metanol à gasolina, colocando em risco a saúde pública
William Oliveira Publicado em 30/08/2025, às 11h41
Na quinta-feira (28), uma operação conjunta da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público desvendou um esquema bilionário de adulteração de combustíveis vinculado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
A investigação apontou que o grupo operava por meio de empresas fictícias, indústrias químicas e terminais portuários, com foco na importação de metanol, uma substância altamente tóxica. Misturado à gasolina, o metanol aumentava os lucros do grupo, mas representava sérios riscos à saúde pública e segurança dos consumidores. Parte da carga era desviada antes de chegar aos destinos legais e abastecia postos controlados pelo PCC.
Transportadoras contratadas eram responsáveis pelo transporte até São Paulo, mas, no trajeto, os caminhões eram redirecionados para postos clandestinos. Para escapar da fiscalização, motoristas eram orientados a alterar placas e destruir notas fiscais, recebendo instruções por mensagens de celular. Em alguns casos, os veículos permaneciam parados por dias até receber novas ordens de entrega.
Nos postos envolvidos, a gasolina apresentava até 50% de metanol, enquanto a legislação permite no máximo 0,5%. Essa prática gerava lucros 72% superiores aos de revendedores regulares.
As autoridades continuam em busca dos principais suspeitos: Mohamad Hussein Mourad (“Primo”) e Roberto Augusto Leme da Silva (“Beto Louco”), ambos foragidos.
Lavagem de dinheiro
A investigação da Receita Federal do Brasil expôs um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro que envolvia uma intricada rede de empresas de fachada, fundos de investimento e fintechs controladas por organizações criminosas. De acordo com as autoridades, a operação, que se estendeu entre os anos de 2020 a 2024, movimentou mais de R$ 46 bilhões, destacando-se uma fintech de pagamento que funcionava como um "banco paralelo" para esses grupos ilegais.
A Receita Federal identificou que os recursos provenientes de atividades ilícitas estavam sendo direcionados para investimentos em negócios diversos, propriedades e outros ativos financeiros. Esses recursos eram canalizados através de fundos de investimentos, cuja estrutura complexa dificultava a rastreabilidade e proporcionava uma aparência de legalidade às transações. Até o momento, foram localizados cerca de 40 fundos (tanto multimercado quanto imobiliários) sob controle da organização criminosa, acumulando um patrimônio estimado em R$ 30 bilhões.
Os bens adquiridos por meio desses fundos incluem ativos significativos, como um terminal portuário e quatro usinas produtoras de álcool. Além disso, a organização obteve 1.600 caminhões destinados ao transporte de combustíveis e mais de 100 imóveis espalhados pelo território nacional. Entre esses imóveis, destacam-se seis fazendas localizadas no interior de São Paulo, avaliadas em R$ 31 milhões, e uma residência luxuosa em Trancoso, na Bahia, com valor estimado em R$ 13 milhões.