Maurício Camisotti faz primeiro acordo da Operação Sem Desconto, que pode abrir caminho para novos depoimentos
Erika Osti Publicado em 10/04/2026, às 17h28
O empresário Maurício Camisotti, apontado pelas investigações como um dos principais nomes por trás de um esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS, fechou um acordo de delação premiada com a Polícia Federal. O material já foi encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, responsável por analisar e decidir sobre a homologação do acordo, etapa essencial para que os depoimentos passem a ter validade jurídica.
Preso desde setembro do ano passado, Camisotti vinha sinalizando interesse em colaborar com as autoridades desde o início das investigações, mas a formalização do acordo ocorreu apenas agora. A delação marca a primeira colaboração oficial no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura um esquema amplo de fraudes envolvendo cobranças irregulares aplicadas diretamente nos benefícios de aposentados e pensionistas.
Segundo a Polícia Federal, o empresário integra o chamado “núcleo financeiro” da organização e teria atuado como operador e beneficiário direto das fraudes. As investigações indicam que entidades e empresas envolvidas no esquema funcionavam como estruturas de fachada, utilizadas para aplicar descontos sem autorização e, posteriormente, lavar os recursos obtidos de forma ilícita.
O modelo investigado incluía a formalização de parcerias com associações e sindicatos que ofereciam supostos serviços aos beneficiários do INSS. Na prática, essas entidades realizavam cobranças mensais nos benefícios, muitas vezes sem consentimento dos aposentados. O resultado foi um crescimento expressivo no número de filiações e no faturamento dessas organizações, que movimentaram valores bilionários ao longo dos últimos anos.
Camisotti também é citado como sócio oculto de associações envolvidas no esquema e teria participação direta na estrutura que viabilizava os descontos. Há ainda suspeitas de pagamento de propinas e uso de mecanismos para facilitar a continuidade das fraudes dentro do sistema previdenciário.
A expectativa da defesa é que, com a homologação da delação, o empresário obtenha benefícios previstos em lei, como a substituição da prisão preventiva por prisão domiciliar. Antes disso, o acordo ainda deverá passar pela análise da Procuradoria-Geral da República.
Além da colaboração de Camisotti, outras delações estão em negociação no mesmo caso. Entre os possíveis colaboradores estão um ex-procurador do INSS e um ex-diretor de benefícios do órgão, ambos investigados por participação no esquema. A Polícia Federal aposta que esses depoimentos podem ajudar a detalhar a estrutura da fraude e identificar novos envolvidos.
A Operação Sem Desconto ganhou força após revelar um sistema sofisticado de exploração de aposentados, com prejuízos em larga escala. Em paralelo, investigações e relatórios parlamentares apontam a existência de uma rede que envolvia agentes públicos, entidades privadas e operadores financeiros, ampliando o alcance do escândalo.