Propina no INSS

Deputada é alvo de investigação por articular esquema bilionário de fraudes no INSS

Relatórios da Polícia Federal indicam recebimento de propinas, articulação política e uso de empresas de fachada para ocultar recursos desviados

Operação da PF revela um esquema nacional de fraudes que pode ter causado prejuízos bilionários ao sistema previdenciário - Imagem: Reprodução

Letícia Sales Publicado em 17/03/2026, às 12h14

Mensagens interceptadas pela Polícia Federal (PF) e documentos reunidos em investigação revelam o suposto papel central da deputada federal Maria Gorete Pereira (MDB-CE) em um esquema bilionário de fraudes envolvendo aposentadorias e pensões do INSS.

De acordo com decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a parlamentar mantinha contato direto com operadores do esquema e discutia formas de receber valores desviados com aparência de legalidade.

O esquema consistia na inclusão indevida de aposentados e pensionistas em associações, gerando descontos automáticos nos benefícios. Segundo a investigação, Gorete atuava como articuladora política para viabilizar acordos que sustentavam o funcionamento da fraude.

Em uma das conversas interceptadas, a deputada sugere ao empresário Natjo de Lima Pinheiro, apontado como operador financeiro, uma estratégia para dar maior legitimidade aos repasses:

É porque a Cecília é escritório de advocacia. Eu acho mais legítimo, tem mais moral para mandar o dinheiro, do que mandar da associação para a senhora.”

Após a explicação do investigado sobre a necessidade de manter o modelo para “preservar as coisas”, a parlamentar respondeu: “Então, meu filho, você é que sabe”.

Em outra mensagem, enviada à própria sobrinha, Gorete reforça a preocupação com a aparência legal das transações: “Como lá é um escritório jurídico, dá mais credibilidade sair de lá do que sair da associação”.

A sobrinha, Sofia Lilia Freitas Pereira, aparece como administradora de uma empresa apontada como de fachada, utilizada para a compra de um imóvel de alto padrão. Segundo a PF, o apartamento, avaliado em cerca de R$ 4 milhões, teria como real beneficiária a deputada.

Documentos analisados indicam que parte dos pagamentos do imóvel saiu diretamente da conta da parlamentar. Um dos repasses, no valor de R$ 1,1 milhão, foi feito por ela, enquanto outros valores — R$ 200 mil, R$ 900 mil, R$ 350 mil e R$ 150 mil — teriam sido pagos pela empresa vinculada à sobrinha.

Além disso, a investigação também aponta a aquisição de um carro de luxo, avaliado em mais de R$ 400 mil, com recursos provenientes do esquema.

As cifras movimentadas chamaram a atenção até mesmo de integrantes da organização criminosa. Em mensagem enviada por Natjo à advogada Cecília Rodrigues Mota, ele afirma: “E Gorete ganhando 1,5 milhão”.

Planilhas apreendidas pela PF reforçam a suspeita. Em uma delas, o nome da deputada aparece vinculado ao valor de R$ 780.433,50, indicado como repasse de propina.

Segundo o ministro André Mendonça, há “inúmeros indícios no sentido de sua participação nos crimes perpetrados contra o INSS mediante descontos indevidos nos benefícios previdenciários pagos por referida autarquia”.

A decisão também destaca que a parlamentar era frequentemente mencionada nas conversas entre os investigados, além de realizar movimentações financeiras consideradas suspeitas e negociar diretamente valores com integrantes do grupo, com auxílio de familiares e assessores.

Apesar das evidências apresentadas, o ministro decidiu não autorizar a prisão preventiva da deputada, medida que havia sido solicitada pela PF com aval da Procuradoria-Geral da República (PGR). Em vez disso, foram impostas medidas cautelares.

A operação desta terça-feira é mais um desdobramento da investigação que apura um esquema de alcance nacional, com potencial de ter desviado bilhões de reais por meio de descontos ilegais em benefícios previdenciários.

Procurados, partidos ligados à trajetória política da deputada informaram que não irão se manifestar neste momento. O espaço segue aberto para posicionamento da parlamentar.

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