PROPINA

Rede de corrupção na Polícia Civil cobrava R$ 33 milhões para sumir com provas

Investigadores da Polícia Federal e do Ministério Público apuram um esquema que teria transformado delegacias em espaços de negociação de propina para impedir o avanço de investigações

Maços de dinheiro em espécie e aparelhos eletrônicos apreendidos durante a Operação Bazaar - Imagem: Divulgação

William Oliveira Publicado em 06/03/2026, às 07h45

Uma operação conjunta da Polícia Federal e do Ministério Público de São Paulo (MPSP), deflagrada nesta sexta-feira (6), revelou um suposto esquema de corrupção que atuava dentro de setores estratégicos da Polícia Civil paulista. Batizada de Operação Bazaar, a investigação aponta que delegacias teriam sido usadas como centros de negociação de impunidade, com participação de delegados, investigadores e doleiros.

As apurações são baseadas em quebras de sigilo bancário e interceptações telemáticas. De acordo com os investigadores, o grupo cobrava altos valores para interromper ou enfraquecer investigações policiais. Em um dos diálogos interceptados, os suspeitos mencionam o pagamento de R$ 33 milhões em propina para impedir o avanço de um inquérito contra um empresário investigado.

Segundo a investigação, o esquema funcionava de forma organizada. Policiais teriam utilizado relatórios de inteligência financeira para identificar pessoas com alto poder aquisitivo. Após serem identificados, esses alvos seriam pressionados a pagar propina para evitar prisões ou apreensão de bens.

O caso também envolve personagens conhecidos em investigações de corrupção no país. Entre os nove presos está a doleira Meire Poza, que já havia sido citada em fases anteriores da Operação Lava Jato. O doleiro Leonardo Meirelles, também ligado a investigações federais, é considerado foragido. De acordo com a apuração, eles atuariam como intermediários financeiros, responsáveis por lavar o dinheiro da propina e transferir os valores aos envolvidos no esquema.

As autoridades também identificaram possíveis irregularidades relacionadas à manipulação de provas. Relatórios indicam que equipamentos com evidências armazenadas, como HDs, teriam sido substituídos por dispositivos vazios antes de serem encaminhados à perícia. O objetivo seria comprometer investigações e favorecer suspeitos de crimes graves.

Para ocultar a origem do dinheiro, o grupo utilizava diferentes estratégias de lavagem de recursos. Além de empresas de fachada e importações fictícias, os investigadores apontam que parte dos valores era convertida em créditos de cartões de benefício, como vale-refeição, mecanismo que dificultaria o rastreamento financeiro.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que a Corregedoria da Polícia Civil acompanha o caso e que os servidores citados foram afastados preventivamente. Caso as acusações sejam confirmadas, os envolvidos poderão responder por crimes como corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, além de possível expulsão da corporação.

Caso segue sob investigação.

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