Entidade esotérica exige pedido formal de desculpas ao Brasil e afirma que o país vizinho ficará “por sua conta e risco” durante o avanço do El Niño, fenômeno que pode intensificar eventos climáticos na América do Sul.
Ana Beatriz Silva Publicado em 28/07/2026, às 12h51
A Fundação Cacique Cobra Coral anunciou a suspensão da chamada “cooperação climática” oferecida à Argentina após as declarações do presidente Javier Milei contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e instituições brasileiras. A decisão foi divulgada pela entidade na noite de segunda-feira, 27 de julho.
Segundo a fundação, a assistência permanecerá interrompida até que Milei apresente um pedido formal de desculpas ao Brasil. No comunicado, a organização afirmou que, enquanto isso não acontecer, a Argentina ficará “por sua conta e risco” durante o início do El Niño.
A expressão “cooperação climática”, no entanto, não se refere a um programa oficial firmado entre os governos brasileiro e argentino. Trata-se da atuação reivindicada pela própria Fundação Cacique Cobra Coral, uma organização esotérica que afirma ser capaz de interferir em fenômenos meteorológicos por meio de rituais espirituais.
A entidade também relembrou uma suposta operação realizada durante a crise energética enfrentada pela Argentina em janeiro de 1989. Na época, o país passou por uma situação de emergência provocada por problemas técnicos no sistema elétrico e por condições naturais adversas que afetaram a geração de energia. A fundação atribui a si mesma participação espiritual no enfrentamento daquela crise, embora não existam evidências científicas que comprovem qualquer interferência da organização no clima ou no sistema energético argentino.
Quem é a Fundação Cacique Cobra Coral
Fundada em 1931 e sediada em Guarulhos, na Grande São Paulo, a Fundação Cacique Cobra Coral declara ter como missão atuar sobre desequilíbrios da natureza provocados pela ação humana. A organização foi criada por Ângelo Scritori e atualmente tem como principal representante a médium Adelaide Scritori.
De acordo com a própria fundação, Adelaide incorpora o espírito conhecido como Cacique Cobra Coral, que também teria vivido anteriormente como Galileu Galilei e Abraham Lincoln. Ao longo das últimas décadas, a entidade afirmou ter participado de ações relacionadas a chuvas, secas, tempestades, crises hídricas e grandes eventos.
A fundação já manteve parcerias sem custos declarados com governos e prefeituras brasileiras. Entre os episódios mais conhecidos estão atuações reivindicadas durante réveillons em Copacabana, eventos no Rio de Janeiro e períodos de estiagem. Nenhuma dessas supostas intervenções climáticas possui comprovação científica reconhecida.
Declarações de Milei provocaram reação do governo brasileiro
O anúncio da Fundação Cacique Cobra Coral ocorreu após Javier Milei participar, em 25 de julho, da convenção nacional do Partido Liberal em São Paulo, evento que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
Durante o discurso, o presidente argentino fez ataques contra Lula, ministros do Supremo Tribunal Federal e o governo brasileiro. Milei classificou o presidente brasileiro como presidiário e ladrão, além de utilizar expressões ofensivas contra integrantes das instituições brasileiras.
As declarações abriram uma nova crise diplomática entre Brasil e Argentina. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador argentino no Brasil, Daniel Raimondi, para transmitir oficialmente a repulsa do governo brasileiro e cobrar explicações.
O embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, também foi chamado a Brasília para consultas, medida considerada um sinal relevante de protesto diplomático. Em nota, o Itamaraty afirmou não haver precedente para que um presidente estrangeiro, durante uma visita ao território brasileiro, ataque o chefe de Estado, o Poder Judiciário e as instituições democráticas do país.
El Niño aumenta preocupação com eventos extremos
Apesar de não existir comprovação científica sobre a alegada capacidade da fundação de controlar o clima, o alerta sobre o El Niño ocorre em um momento de atenção meteorológica internacional.
O fenômeno está ativo e deve ganhar força ao longo de 2026. Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, existe uma probabilidade de 97% de que o El Niño continue até o início de 2027. Modelos experimentais também indicam que o evento pode atingir intensidade histórica nos próximos meses.
O Serviço Meteorológico Nacional da Argentina informou que as condições observadas no Oceano Pacífico são compatíveis com o El Niño. Para o trimestre formado por julho, agosto e setembro de 2026, os modelos indicam probabilidade próxima de 100% de continuidade do fenômeno.
O El Niño altera padrões de temperatura e circulação atmosférica em diferentes regiões do planeta. Na Argentina e no Sul do Brasil, o fenômeno pode favorecer períodos de chuva mais frequente e intensa, embora seus efeitos variem conforme a região e dependam de outros fatores meteorológicos.
A suspensão anunciada pela Fundação Cacique Cobra Coral não produz efeitos comprovados sobre as condições meteorológicas argentinas. O episódio, contudo, ganhou repercussão por combinar esoterismo, fenômenos climáticos e a crescente tensão política entre os governos de Lula e Javier Milei.