Ocorrência só foi apresentada à Polícia Civil 16 horas depois; soldado atirou contra suspeito e acertou trabalhador em ponto de ônibus
Letícia Sales Publicado em 26/01/2026, às 11h44 - Atualizado às 11h44
O delegado Eder Vulczak, titular do 47º Distrito Policial de São Paulo, afirmou que a Polícia Militar prejudicou a investigação do caso em que um pedestre foi baleado por um PM durante uma ação no Capão Redondo, zona sul da capital, na madrugada do último sábado (24). Segundo ele, a ocorrência não foi apresentada imediatamente à Polícia Civil, como determina a legislação, o que comprometeu a apuração dos fatos.
De acordo com o delegado, o soldado Luiz Henrique Braz dos Santos, que efetuou o disparo, foi detido por ordem do comandante do 47º Batalhão Metropolitano e encaminhado diretamente ao presídio militar Romão Gomes, sem antes prestar depoimento na delegacia. O caso só chegou ao conhecimento da Polícia Civil cerca de 16 horas depois, por volta das 20h, quando um tenente da Polícia Judiciária Militar apresentou a ocorrência.
Em despacho oficial, Vulczak afirmou considerar plausível a tese de legítima defesa apresentada pelo policial, mas destacou que a conduta se enquadra, em tese, como tentativa de homicídio, por envolver o risco assumido de matar. Segundo o delegado, por se tratar de crime doloso contra a vida praticado por policial militar contra um civil, a investigação é de competência exclusiva da Polícia Civil, com eventual julgamento pelo Tribunal do Júri.
Na versão apresentada pela PM, o soldado atirou após um motociclista retirar a mão do guidão e fazer menção de levá-la à cintura, onde haveria um volume semelhante a uma arma de fogo. O suspeito conseguiu fugir, e o disparo acabou atingindo o auxiliar de limpeza Lourivaldo Vieira dos Santos, que aguardava em um ponto de ônibus. Ele foi baleado na região lombar e passou por cirurgia no Pronto-Socorro do Campo Limpo.
O delegado também criticou a falta de preservação do local do crime e a ausência de solicitação imediata de perícia, o que pode ter causado a perda de vestígios importantes. Para Vulczak, isso comprometeu a análise técnica da trajetória do disparo e a verificação das versões apresentadas pelos envolvidos.
“A não apresentação do soldado nesta unidade, por ordem superior, assim como a ausência de requisição de perícia no local, acarretaram prejuízo concreto ao regular andamento das investigações”, afirmou o delegado. Segundo ele, a demora na oitiva do principal envolvido também compromete a espontaneidade do relato e a reconstrução fiel da dinâmica do ocorrido.
Ao apresentar a ocorrência com atraso, o tenente Valdir de Souza Junior declarou que um sargento de sobrenome Tuckmantel teria informado, por telefone, que a autoridade policial de plantão teria dispensado o registro do caso. O nome dessa suposta autoridade, no entanto, não foi informado.
O episódio agora é apurado pela Polícia Civil, enquanto a atuação da Polícia Militar no encaminhamento da ocorrência deve ser analisada nas esferas administrativa e disciplinar.