O coronel José Vicente da Silva critica a tentativa de diferenciação dos policiais e destaca a falta de interação com a população
Marina Milani Publicado em 16/04/2025, às 08h25
A recente divulgação de um vídeo pelo 9º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep) gerou intensa repercussão e críticas, especialmente após a exibição de rituais que evocam simbologias associadas a grupos supremacistas, como a Ku Klux Klan. O coronel da reserva José Vicente da Silva, ex-secretário nacional de Segurança Pública, qualificou o conteúdo como "muito diferente dos demais" e indicou uma tentativa equivocada de diferenciação por parte dos policiais.
A gravação, que foi publicada no perfil oficial do Baep no Instagram na última terça-feira (15) e posteriormente removida, mostrava um grupo de pelo menos 14 policiais diante de uma cruz em chamas, com um cenário noturno e música de fundo. A rapidez com que o material foi apagado não impediu que a reportagem tivesse acesso ao conteúdo antes da remoção.
De acordo com José Vicente da Silva, a tentativa dos policiais em se distanciar das práticas tradicionais é "sem sentido". Ele ressaltou que essa abordagem não contribui para o trabalho preventivo das forças policiais. "Esses batalhões especiais não têm a mesma capacidade de interação com a população que os policiais que atuam na rotina", afirmou o coronel, enfatizando que as diferenças de formação entre os PMs comuns e os do Baep não justificam comportamentos que possam ser considerados como excessos.
O especialista criticou ainda a cultura de "heróis" que permeia algumas unidades especiais da polícia, apontando que essa diferenciação deveria ser coibida pelos comandos superiores da corporação. "O soldado da PM passa por um curso de 2.600 horas de formação. Já o Baep oferece um curso reduzido de 30 horas e se considera como formando um 'PM plus'", completou.
Por outro lado, em relação ao gesto realizado pelos policiais no vídeo, José Vicente considerou-o uma manifestação comum durante juramentos e não uma saudação nazista. Em contrapartida, Rafael Alcadipani, especialista em segurança pública e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), compartilhou a preocupação sobre as conotações do gesto, embora também tenha ressaltado que não o classificaria diretamente como um sinal nazista.
Alcadipani considerou a gravação inaceitável e comparou sua estética aos rituais da Ku Klux Klan. "É lamentável ver uma força de segurança utilizando símbolos dessa natureza. O uso de viaturas e recursos estatais para esse tipo de conteúdo é completamente inadmissível", opinou.
A Ku Klux Klan, fundada nos Estados Unidos na década de 1860, é conhecida por promover ideais supremacistas brancos e perpetrar atos violentos contra minorias étnicas, particularmente afro-americanos. O grupo se tornou notório por seus rituais envolvendo cruzes em chamas.
A Polícia Militar se posicionou oficialmente na noite do incidente, repudiando qualquer manifestação de intolerância e anunciando a abertura de um procedimento investigativo para apurar as circunstâncias do vídeo polêmico.