Relatório aponta falhas na gestão de crise, baixa produtividade das equipes e inconsistências em dados apresentados pela concessionária
Letícia Sales Publicado em 12/02/2026, às 11h12
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) concluiu que a atuação da Enel durante o apagão que atingiu cerca de 4,4 milhões de imóveis na Grande São Paulo, em dezembro do ano passado, foi “insatisfatória”. A avaliação consta em nota técnica que detalha problemas na gestão da crise, falhas na manutenção preventiva e inconsistências em registros operacionais apresentados pela concessionária.
Segundo o relatório, as equipes da empresa tiveram desempenho considerado abaixo do esperado no restabelecimento do serviço. A média foi de 2,82 interrupções atendidas por equipe, índice classificado como insuficiente pela agência reguladora. Embora a Enel tenha informado a mobilização de 1.500 equipes durante o evento, a Aneel identificou que parte significativa desse contingente não atuava com frequência em ocorrências emergenciais.
Outro ponto crítico foi a concentração de profissionais no horário comercial. A agência verificou que a maior parte do efetivo foi mantida entre 8h e 17h, com redução expressiva à noite e na madrugada. Em 11 de dezembro de 2025, por exemplo, 60% das equipes estavam em campo durante o dia, enquanto apenas 10% atuavam na madrugada, o que, segundo o órgão, comprometeu a resposta diante da gravidade da situação.
A Aneel estima que aproximadamente 59% das interrupções foram provocadas por ventos fortes, que causaram cabos rompidos, contato entre fios, estruturas danificadas e falhas na rede. Ainda assim, o relatório aponta que a empresa priorizou o uso de veículos de pequeno porte, como motocicletas, em vez de caminhões, o que teria dificultado a execução de reparos mais complexos.
A agência também registrou que nem todos os documentos solicitados foram apresentados no momento da inspeção. Além disso, a Enel revisou posteriormente o número de imóveis afetados: inicialmente, havia informado 2,2 milhões de unidades sem energia, metade do total estimado pela fiscalização.
Entre as cidades mais impactadas estão Pirapora do Bom Jesus, com 147 horas sem fornecimento; Cotia, com 111 horas; Cajamar, com 98 horas; e a capital paulista, onde houve registros superiores a 95 horas de interrupção.
Em dezembro, após reunião com o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que solicitará a caducidade do contrato da Enel.
Em nota, a concessionária afirmou que cumpriu os critérios estabelecidos no plano de recuperação apresentado à Aneel em 2024 e que colaborou de forma transparente com as fiscalizações. A empresa também sustentou que, apesar da severidade do evento climático, o restabelecimento do serviço ocorreu de maneira mais rápida do que em episódio semelhante registrado em outubro de 2024.
A análise da Aneel poderá embasar eventuais sanções administrativas e outras medidas regulatórias contra a concessionária.