Eleição em Portugal

Portugal terá segundo turno presidencial após avanço da direita radical em eleição histórica

Pela primeira vez em 40 anos, país vive disputa decisiva marcada por polarização, discurso moral e reação democrática — cenário que lembra o Brasil recente

André Ventura tem o desafio de reverter um quadro de 60% de rejeição no segundo turno - Reprodução / Tiago Petinga, Lusa

Otávio Alonso Publicado em 18/01/2026, às 21h42

Ler resumo da notícia

Portugal foi às urnas neste domingo (18) e saiu com um resultado que já entrou para a história política do país. Pela primeira vez em quatro décadas — e apenas a segunda desde a redemocratização — a eleição presidencial será decidida no segundo turno, em um cenário marcado por forte polarização política, tensão social e disputa narrativa sobre os rumos da democracia portuguesa.

A eleição terá como protagonistas André Ventura, líder do partido de ultradireita Chega, e António José Seguro, representante da esquerda moderada que tenta aglutinar uma frente democrática para conter o avanço radical no país.

Ascensão de Ventura rompe equilíbrio histórico em Portugal

André Ventura encerrou o primeiro turno com 23% dos votos, consolidando uma trajetória política meteórica. Ex-comentarista esportivo, ele ganhou projeção nacional a partir de 2014, disputou uma vaga no Parlamento em 2017 e, dois anos depois, fundou o Chega.

Em apenas seis anos, o partido saiu de um único deputado para 58 cadeiras no Parlamento, tornando-se uma das principais forças políticas de Portugal. O crescimento se sustentou em um discurso duro sobre segurança pública, combate à corrupção e imigração — este último frequentemente associado a acusações de xenofobia e ataques a imigrantes e à comunidade cigana.

Ventura nega ser racista e afirma defender “uma imigração decente, mas não descontrolada”. Em 2021, resgatou o lema “Deus, Pátria e Família”, símbolo do período autoritário português, ao qual acrescentou a palavra “trabalho”. Apesar disso, declara não apoiar a ditadura de António de Oliveira Salazar, que governou Portugal por quatro décadas.

Voto útil e rejeição elevada marcam a eleição em Portugal

Do outro lado da disputa, António José Seguro avançou ao segundo turno impulsionado por um movimento de voto útil. A estratégia busca unir forças democráticas para barrar a chegada da extrema direita ao Palácio de Belém.

Pesquisas de opinião indicam que a rejeição a Ventura gira em torno de 60% do eleitorado, dado considerado central pela centro-esquerda para a reta final da campanha eleitoral em Portugal.

Seguro aposta em um discurso institucional, moderado e focado na defesa das instituições democráticas, tentando atrair eleitores de diferentes campos políticos preocupados com a radicalização do debate público e com os impactos da polarização na democracia portuguesa.

Portugal e Brasil: eleições com paralelos evidentes

O cenário da eleição em Portugal guarda semelhanças claras com o vivido recentemente no Brasil. Assim como Ventura, Jair Messias Bolsonaro construiu sua ascensão política com base no discurso de combate à corrupção, endurecimento penal e uso recorrente do lema “Deus, Pátria e Família”.

No campo oposto, Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição brasileira ao liderar uma frente ampla democrática, reunindo diferentes espectros políticos em defesa das instituições e contra o que era visto como uma ameaça ao equilíbrio democrático.

Assim como ocorreu no Brasil, a eleição portuguesa ultrapassa o debate econômico e se transforma em um verdadeiro plebiscito sobre valores, democracia e os limites do discurso político.

O que está em jogo no segundo turno da eleição em Portugal

Mais do que a escolha de um presidente, Portugal decidirá no segundo turno se mantém sua tradição de estabilidade institucional ou se abre espaço para uma guinada política inédita desde o fim do regime autoritário.

O segundo turno da eleição em Portugal promete ser decisivo não apenas para o futuro do país, mas também como termômetro de uma tendência global: o avanço de lideranças populistas em democracias consolidadas — e a capacidade das sociedades de reagirem a elas.

democracia Imigração corrupção PORTUGAL ELEIÇÃO TENSÃO presidencial POLARIZAÇÃO Luiz Inácio Lula da Silva Jair Messias Bolsonaro rejeição Extrema direita populismo Chega António josé seguro André ventura Palácio de belém

Leia também