Filho do antigo líder assume comando político e religioso do país em meio à escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel
Erika Osti Publicado em 08/03/2026, às 20h21
O Irã anunciou neste domingo (8) a escolha de Mojtaba Khamenei, de 56 anos, como novo líder supremo do país. A decisão foi tomada pela Assembleia de Especialistas, órgão formado por 88 clérigos responsáveis por escolher a principal autoridade política e religiosa da República Islâmica. Mojtaba sucede seu pai, o aiatolá Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro durante bombardeios realizados por Estados Unidos e Israel contra alvos estratégicos em Teerã, em meio à atual escalada militar no Oriente Médio.
Segundo a mídia estatal iraniana, a assembleia convocou a população a manter a unidade nacional e jurar lealdade ao novo líder. A confirmação da nomeação foi feita por integrantes do próprio colegiado religioso e divulgada oficialmente após a votação interna.
Com a escolha, Mojtaba passa a ocupar o cargo mais poderoso do sistema político iraniano. Além de líder religioso máximo, ele se torna chefe de Estado de fato, comandante das Forças Armadas e responsável final pelas principais decisões estratégicas e políticas do país.
A eleição ocorre em um momento de grande tensão internacional. Nos últimos dias, o Irã tem enfrentado ataques militares de Estados Unidos e Israel, que atingiram alvos estratégicos e integrantes da cúpula do regime. O próprio Ali Khamenei estava entre as vítimas dos bombardeios, que também mataram comandantes militares e ampliaram o risco de um conflito regional mais amplo.
Mojtaba Khamenei já era considerado há anos um dos principais nomes cotados para suceder o pai. Apesar de manter um perfil discreto e raramente aparecer em público, ele construiu forte influência nos bastidores do poder iraniano ao longo das últimas décadas.
Durante anos, atuou dentro do gabinete do pai, participando de articulações políticas e da coordenação de operações ligadas à segurança e à inteligência do regime. Analistas apontam que sua escolha sinaliza a intenção da liderança iraniana de preservar a continuidade do sistema político estabelecido após a Revolução Islâmica de 1979.
Mesmo ostentando o título de aiatolá desde 2022, Mojtaba é considerado um clérigo de nível intermediário dentro da hierarquia religiosa xiita. Ainda assim, tornou-se uma figura central dentro do establishment clerical e político do país.
Outro fator que fortaleceu sua posição foi a relação próxima com a Guarda Revolucionária Islâmica, considerada a força militar mais poderosa do Irã e um dos pilares de sustentação do regime. Segundo autoridades citadas pela imprensa internacional, setores da guarda teriam apoiado sua indicação para garantir estabilidade política durante o atual cenário de guerra.
Após o anúncio da nomeação, líderes militares e políticos iranianos declararam apoio ao novo líder supremo. A Guarda Revolucionária afirmou estar pronta para seguir as orientações de Mojtaba, enquanto integrantes das Forças Armadas juraram lealdade ao novo comandante.
Autoridades do Parlamento iraniano também saudaram a escolha, classificando a decisão como um dever religioso e nacional diante da situação delicada enfrentada pelo país.
A ascensão de Mojtaba, no entanto, também gera controvérsia. No sistema político iraniano, embora o poder esteja concentrado na liderança religiosa, a sucessão hereditária não é vista com bons olhos por parte da tradição política do país. A Revolução Islâmica de 1979, que derrubou a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi, defendia justamente o fim da transmissão familiar do poder.
Mesmo assim, especialistas apontam que sua influência política e o apoio de setores estratégicos do regime pesaram na decisão da assembleia.
Mojtaba também já foi alvo de críticas por suposta participação indireta na repressão a protestos no Irã, especialmente durante o chamado Movimento Verde, em 2009, quando manifestações contestaram o resultado da eleição presidencial daquele ano.
A escolha do novo líder ocorre em meio ao agravamento das tensões entre o Irã e os Estados Unidos. O presidente norte-americano Donald Trump criticou a possível sucessão e chegou a afirmar que o próximo líder iraniano “não vai durar muito” sem a aprovação de Washington.
A declaração foi rebatida pelo ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, que afirmou que a escolha do líder supremo é um assunto interno do país. Segundo ele, cabe apenas ao povo iraniano decidir quem comandará a nação.
O ministro também acusou os Estados Unidos de terem iniciado a atual escalada militar e cobrou um pedido de desculpas pelas mortes e pela destruição provocadas pelos ataques recentes.