COLUNA

O lugar a que pertencemos

- Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Marlene Theodoro Polito Publicado em 23/06/2026, às 08h00

Durante uma conversa com nossa amiga Patrícia Gorisch, jurista dedicada à defesa dos Direitos Humanos e dos refugiados, ouvimos uma história que nos emocionou.

Depois de anos vivendo entre esperança e incerteza, aguardando a decisão que definiria seu futuro, um homem recebeu a notícia que esperava havia muito tempo: o Brasil reconhecera oficialmente sua condição de refugiado.

Para quem nunca passou por essa experiência, a notícia pode parecer apenas um ato administrativo. Mas, para quem fugiu da guerra, da perseguição ou da violência, trata-se muitas vezes da diferença entre viver em insegurança e começar a reconstruir a própria vida.

Ao saber que seu pedido fora finalmente aceito, ele não gritou, não ergueu os braços nem comemorou.

Ajoelhou-se.

E beijou a terra.

O gesto era simples. Mas o que significava?

Refugiados que atravessaram guerras, perseguições, fronteiras e deslocamentos forçados frequentemente repetem esse gesto ao chegar a um lugar seguro. Em circunstâncias distintas, homens e mulheres de diferentes épocas também tocaram o solo ao reencontrar uma terra perdida ou alcançar um destino aguardado.

Em muitas culturas, beijar a terra é sinal de gratidão, respeito ou retorno. E há algo de profundamente humano nesse gesto de aproximar o corpo daquilo que o sustenta. Como se, por um instante, reconhecêssemos nossa dependência da terra e o significado que ela pode assumir em nossas vidas.

Mas por que a terra? Por que não a bandeira, os documentos, os papeis que oficializam uma nova condição?

Talvez porque a terra possua um significado que ultrapassa o território. Ela é o lugar onde se constrói a vida, onde repousam os mortos e florescem os sonhos. É o espaço concreto sobre o qual se erguem as histórias humanas.

A história da humanidade é, em grande medida, uma história de deslocamentos.

Povos migraram em busca de água, alimento e novas possibilidades de existência. Comunidades inteiras abandonaram regiões devastadas por guerras, perseguições ou fome. Milhões deixaram para trás a terra natal carregando apenas o que podiam transportar.

Em todas essas jornadas havia uma esperança comum: encontrar um lugar onde fosse possível criar raízes. Trata-se de uma inquietação tão antiga quanto a própria experiência humana.

Muito antes de ser estudada pela história ou pelas ciências sociais, ela já habitava os mitos, as narrativas e a literatura.

Ao longo dos séculos, essa busca assumiu diferentes formas. Uma delas reapareceria nas grandes peregrinações medievais. Na Idade Média, milhares de peregrinos atravessaram estradas e fronteiras em direção a Jerusalém, Roma ou Santiago de Compostela. Alguns buscavam cumprir promessas. Outros procuravam cura, perdão ou renovação espiritual.

Chegar ao destino representava mais do que concluir uma viagem. Significava alcançar um lugar capaz de dar sentido ao percurso.

Santiago de Compostela e o peregrino.

Separadas por séculos, essas jornadas continuam a se repetir.

Ainda hoje, milhões atravessam desertos, mares e fronteiras em busca de segurança, liberdade ou simplesmente da possibilidade de reconstruir a vida.

Mudam os caminhos. Mudam os perigos. Permanece a mesma esperança: encontrar um lugar onde seja possível permanecer.

E talvez seja justamente essa necessidade de pertencimento que explique a força simbólica do gesto de beijar a terra.

Mas nem todas as histórias humanas terminam com uma chegada. Algumas seguem em aberto entre a partida e o destino.

É o que encontramos em "O Velho na Ponte", de Ernest Hemingway. Escrito durante a Guerra Civil Espanhola, o conto apresenta um velho sentado à beira de uma ponte enquanto os demais fogem do avanço das tropas inimigas.

Exausto, ele já não consegue acompanhar os que seguem viagem. Não sabe para onde ir. Sua maior preocupação são os animais que precisou abandonar. Enquanto o mundo segue em movimento, ele permanece imóvel. Entre a terra que perdeu e a que ainda não encontrou, resta a espera.

A ponte transforma-se em um espaço de passagem sem chegada. Mais do que um personagem, o velho torna-se símbolo daqueles que perderam o lugar ao qual pertenciam sem saber se encontrarão outro.

Na Odisseia de Homero, Ulisses sonhava apenas com o retorno a Ítaca após anos de guerras, tempestades e desvios. Os peregrinos buscavam Jerusalém, Roma ou Santiago de Compostela. O velho da ponte de Hemingway já não sabia para onde seguir. O refugiado de quem Patrícia nos falou finalmente encontrou um chão onde reconstruir a vida.

São histórias diferentes, separadas por séculos, mas unidas pela mesma inquietação: a busca de um lugar ao qual se possa pertencer.

Nem sempre esse lugar recebe o nome de pátria. Às vezes se chama casa. Às vezes, família. Às vezes, comunidade, cultura ou língua. A pátria é uma das formas mais poderosas de pertencimento, mas não a única.

Talvez por isso o gesto daquele homem ultrapasse sua história. Ao ajoelhar-se e beijar a terra, ele não celebrava apenas o reconhecimento de uma condição jurídica. Celebrava a descoberta de um lugar onde sua vida poderia continuar.

Talvez a pátria, então, comece quando o chão deixa de ser apenas território e passa a ser abrigo.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio jabuti) e “O enigma de Sofia”. polito@uol.com.br

Marlene Polito Santiago de compostela

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