Nova política para Olimpíadas de 2028 impõe critérios genéticos e amplia tensão entre inclusão, ciência e política no esporte.
Ana Beatriz Publicado em 27/03/2026, às 13h17
A decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) de restringir a participação de atletas trans em competições femininas a partir dos Jogos Olímpicos de 2028 provocou forte reação no meio esportivo e reacendeu um dos debates mais sensíveis do esporte contemporâneo. A jogadora brasileira Tiffany Abreu, do Osasco, classificou a medida como parte de um cenário político global e afirmou que enfrenta “uma luta diária contra a extrema direita”.
A nova diretriz anunciada nesta semana estabelece que apenas atletas consideradas “biologicamente mulheres” poderão competir na categoria feminina, com base em testes genéticos, incluindo a verificação do gene SRY, ligado ao desenvolvimento masculino.
A regra representa uma mudança significativa na política do COI, que anteriormente adotava critérios mais flexíveis, como níveis hormonais, e agora retoma, sob nova forma, mecanismos semelhantes aos antigos testes de verificação de sexo utilizados desde a década de 1960.
Reação de Tiffany e crítica política
Em meio aos playoffs da Superliga feminina, Tiffany afirmou não ter se surpreendido com a decisão e associou a mudança a pressões políticas internacionais. Segundo a atleta, a nova presidência do COI já indicava um posicionamento mais restritivo em relação à participação de pessoas trans no esporte.
A jogadora também citou o cenário político dos Estados Unidos, sede dos Jogos de 2028, e apontou influência de medidas adotadas pelo presidente Donald Trump, que assinou decretos limitando a participação de mulheres trans em competições femininas no país.
“É uma luta diária”, afirmou a atleta, destacando a instabilidade das regras ao longo dos anos e a constante necessidade de adaptação por parte de atletas trans.
Mudança de paradigma no esporte olímpico
A decisão do COI marca uma virada estrutural na governança esportiva internacional. A entidade justificou a medida com base em critérios científicos e na necessidade de garantir “equidade, segurança e integridade” nas competições femininas.
No entanto, especialistas e organizações civis apontam que o tema está longe de consenso. Há divergências sobre o real impacto biológico na performance esportiva e críticas de que a decisão pode ter motivações políticas e não exclusivamente científicas.
Historicamente, a presença de atletas trans em Jogos Olímpicos é rara. Nos últimos ciclos olímpicos, apenas um caso ganhou destaque, o que reforça o argumento de que o impacto competitivo ainda é limitado, apesar da repercussão global do tema.
Pressão crescente também no Brasil
O debate não se restringe ao cenário internacional. No Brasil, propostas legislativas com o objetivo de restringir a participação de atletas trans vêm se multiplicando nos últimos anos, refletindo o avanço da polarização sobre o tema.
Casos recentes envolvendo Tiffany, incluindo tentativas de veto em competições nacionais, mostram que o assunto já impacta diretamente o esporte brasileiro e tende a ganhar ainda mais força com a decisão do COI.
Um debate que vai além do esporte
A nova política olímpica coloca em choque três dimensões centrais: inclusão, ciência e política. Enquanto entidades esportivas defendem critérios biológicos para preservar a competitividade, atletas e movimentos sociais apontam riscos de exclusão e discriminação.
Com os Jogos de Los Angeles 2028 no horizonte, a decisão do COI não apenas redefine regras esportivas, mas também projeta um novo capítulo na disputa global sobre identidade, direitos e limites do esporte de alto rendimento.