Inquérito apura atos da diretoria, contratos e uso de recursos que podem ter agravado a situação financeira do clube
Lívia Gennari Publicado em 16/01/2026, às 20h41
O Ministério Público de São Paulo abriu uma investigação para analisar a gestão administrativa do São Paulo Futebol Clube durante o mandato do presidente Julio Cesar Casares. A apuração busca entender se decisões tomadas ao longo do período contribuíram para o agravamento da situação financeira do clube, cuja dívida é estimada em cerca de R$ 1 bilhão, além de verificar possíveis prejuízos ao patrimônio da instituição.
Segundo o MP, o foco é identificar se medidas adotadas pela diretoria tiveram impacto direto no endividamento e se essas escolhas afetaram direitos de torcedores, associados e atletas. A investigação também analisa o uso de recursos públicos, incentivos fiscais e benefícios tributários, avaliando se essas práticas seguiram as regras e a finalidade prevista.
Contratos, shows e rombo nas contas
Entre os principais eixos de apuração estão a movimentação de recursos financeiros, a terceirização da gestão, a contratação de empresas para eventos e shows no Estádio do Morumbi, além da eficácia dos mecanismos de controle interno.
Outro foco relevante do inquérito é o uso de instrumentos de antecipação de receitas, como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), em um cenário de déficits recorrentes. O orçamento aprovado para 2026 projeta um rombo de aproximadamente R$ 126 milhões, além de um déficit mensal superior a R$ 10 milhões, o que, segundo o MP, pode gerar impactos negativos para as gestões futuras.
Na mira: base, camarotes e uso de medicamentos
A Promotoria também investiga negociações envolvendo atletas das categorias de base, incluindo transferências de jovens jogadores e propostas de cessão de direitos econômicos a fundos de investimento. Há ainda apuração sobre possíveis conflitos de interesse nessas operações e eventual favorecimento de terceiros ou familiares de dirigentes.
O inquérito se estende a outros temas sensíveis, como a comercialização de camarotes em dias de shows no Morumbi, contratos firmados com empresas fornecedoras de veículos, a aquisição de medicamentos à base de tirzepatida para uso em atletas profissionais e o cumprimento das normas de acessibilidade para torcedores com deficiência no estádio, conforme exigências da legislação brasileira.
Dirigentes são convocados
Para aprofundar as apurações, o Ministério Público determinou uma série de diligências e expediu ofícios a dirigentes atuais e antigos do clube, membros dos conselhos, executivos, empresas parceiras e órgãos públicos.
Entre os intimados estão o próprio presidente Julio Casares, diretores financeiros, responsáveis por compliance e governança, integrantes do departamento médico, representantes da Anvisa, da CBF, da Federação Paulista de Futebol e da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência.
O MP ressalta que, apesar de o São Paulo FC ter apresentado uma manifestação preliminar, as informações não foram suficientes para afastar a necessidade de investigação aprofundada. A Promotoria destaca ainda que, embora clubes esportivos tenham autonomia privada garantida pela Constituição, essa liberdade não os exime do dever de observar princípios como legalidade, moralidade, transparência e eficiência, especialmente quando há envolvimento de recursos públicos ou benefícios fiscais.
Com base em decisão recente do Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a legitimidade do Ministério Público para fiscalizar clubes de futebol em casos de interesse público e social, o inquérito seguirá em curso pelos próximos meses. Ao final, a Promotoria avaliará se há elementos para o ajuizamento de ação judicial ou para o eventual arquivamento do procedimento.