Escritor, diretor e dramaturgo, Maneco morreu aos 92 anos no Rio de Janeiro; criador de novelas icônicas, ele marcou gerações ao retratar o amor, os conflitos familiares e o Rio como cenário permanente.
Ana Beatriz Publicado em 10/01/2026, às 21h31
Um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira, Manoel Carlos morreu neste sábado (10), aos 92 anos, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela família. O autor estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, onde tratava complicações da Doença de Parkinson, que nos últimos anos comprometeram seu desenvolvimento motor e cognitivo. A causa da morte não foi divulgada.
Conhecido como Maneco, ele foi responsável por algumas das novelas mais emblemáticas da televisão brasileira, como Por Amor, Laços de Família, Mulheres Apaixonadas, História de Amor e Páginas da Vida. Sua obra ficou marcada pela sensibilidade na construção de personagens, pelo mergulho profundo nos conflitos familiares e pela criação das inesquecíveis protagonistas chamadas Helena.
Apesar de ter nascido em São Paulo, em 1933, Manoel Carlos sempre se declarou carioca de coração. O Rio de Janeiro não era apenas cenário, mas personagem constante de suas histórias, especialmente bairros como o Leblon, que se tornaram quase mitológicos em suas tramas.
Filho de um comerciante e de uma professora, iniciou a vida profissional ainda adolescente, aos 14 anos, como auxiliar de escritório. Paralelamente, frequentava diariamente a Biblioteca Municipal de São Paulo, onde integrava o grupo intelectual “Adoradores de Minerva”, ao lado de nomes como Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Flávio Rangel e Antunes Filho.
A carreira artística começou nos palcos e na atuação. Aos 17 anos, estreou como ator no Grande Teatro Tupi e, no ano seguinte, foi premiado como ator revelação. Em pouco tempo, passou a escrever, produzir e dirigir programas de televisão, acumulando passagens por emissoras como TV Tupi, Record, Excelsior, TV Rio e Itacolomi, além de colaborar com jornais e programas históricos da televisão brasileira.
Na TV Globo, Manoel Carlos chegou em 1972 como diretor-geral do Fantástico. Em 1978, estreou como autor de novelas na emissora com Maria, Maria e, no mesmo ano, adaptou A Sucessora. A partir da década de 1980, consolidou um estilo próprio, inspirado nas radionovelas e pautado pela verossimilhança emocional.
Foi em Baila Comigo (1981) que surgiu a primeira Helena, personagem que se tornaria marca registrada de sua obra. Ao todo, foram nove Helenas, interpretadas por grandes atrizes como Lilian Lemmertz, Maitê Proença, Regina Duarte, Vera Fischer, Christiane Torloni, Taís Araújo e Julia Lemmertz. Para Maneco, o nome simbolizava a mulher forte, capaz de amar até o sacrifício.
“A mulher move o mundo”, dizia o autor, que frequentemente colocava o protagonismo feminino no centro de suas narrativas. Em novelas como Por Amor e Laços de Família, explorou dilemas extremos da maternidade, cenas que entraram para a história da TV brasileira, como a troca de bebês e o raspar do cabelo de Carolina Dieckmann em uma campanha marcante de conscientização sobre leucemia.
Além do sucesso popular, Manoel Carlos também utilizou suas tramas como instrumento de debate social, abordando temas como doação de medula óssea, alcoolismo, violência contra a mulher, inclusão social e preconceito.
Aposentado desde 2014, após Em Família, Maneco vivia recluso com a família. Ele deixa duas filhas: a atriz Júlia Almeida e a roteirista Maria Carolina, que colaborou com ele em diversas obras. Outros três filhos faleceram ao longo dos anos.
O velório será fechado, restrito a familiares e amigos íntimos. Em nota, a família agradeceu as manifestações de carinho e pediu respeito à privacidade neste momento de luto.