Levantamento do IBGE aponta altos índices de tristeza, autoagressão e falta de apoio entre estudantes de 13 a 17 anos
Letícia Sales Publicado em 25/03/2026, às 11h41
Um retrato preocupante da saúde mental de adolescentes no Brasil foi divulgado nesta quarta-feira (25) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe) indicam que três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos se sentem tristes sempre ou na maior parte do tempo — proporção semelhante à dos que já tiveram vontade de se machucar de propósito.
O levantamento ouviu mais de 118 mil adolescentes em 4.167 escolas públicas e privadas em todo o país, em 2024, sendo considerado representativo da população estudantil brasileira.
Além da tristeza recorrente, 42,9% dos jovens afirmaram sentir-se irritados, nervosos ou mal-humorados com frequência, enquanto 18,5% disseram pensar, constantemente ou na maior parte do tempo, que “a vida não vale a pena ser vivida”.
A pesquisa também evidencia um cenário de desamparo. Cerca de 26,1% dos estudantes relataram sentir que “ninguém se preocupa” com eles, e mais de um terço afirmou que pais ou responsáveis não compreendem seus problemas. Outro dado alarmante mostra que 20% dos adolescentes sofreram agressão física dentro de casa ao menos uma vez no último ano.
No ambiente escolar, o suporte psicológico ainda é limitado. Menos da metade dos alunos estuda em instituições que oferecem algum tipo de apoio nessa área, com desigualdade entre redes: 58,2% na privada e 45,8% na pública. A presença de profissionais de saúde mental nas escolas é ainda mais rara, alcançando apenas 34,1% dos estudantes.
Os dados também mostram diferenças significativas entre meninos e meninas. Em todos os indicadores, as adolescentes apresentam índices mais elevados de sofrimento psicológico, incluindo maior insatisfação com a própria imagem corporal e maior incidência de autoagressões.
Entre os estudantes que sofreram algum tipo de lesão, cerca de 100 mil relataram que os ferimentos foram autoprovocados. Nesse grupo, 73% disseram se sentir tristes frequentemente, 62% afirmaram não ver sentido na vida e quase 70% relataram ter sofrido bullying.
A insatisfação com a aparência também cresceu nos últimos anos. Desde 2019, o índice de estudantes satisfeitos com o próprio corpo caiu de 66,5% para 58%, sendo mais crítico entre as meninas.
Diante desse cenário, especialistas e o Ministério da Saúde reforçam a importância de buscar ajuda. Conversar com familiares, amigos ou educadores e procurar serviços de saúde pode ser fundamental. Entre os atendimentos disponíveis estão os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), unidades básicas de saúde e o Centro de Valorização da Vida, que oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Os dados reforçam a urgência de políticas públicas voltadas à saúde mental de jovens, especialmente no ambiente escolar, onde passam grande parte do tempo e podem encontrar — ou não — o suporte necessário.