COLUNA

Tumulto e revolta contra a prisão e deportação de imigrantes ilegais. Será que o problema é só a defesa de trabalhadores sem ficha criminal e suas famílias?

A crise econômica da Califórnia, com altos impostos e desemprego, agrava a situação dos imigrantes e da população local. - Imagem: Reprodução | Freepik

Dennis Munhoz Publicado em 16/06/2025, às 08h22 - Atualizado em 17/06/2025, às 08h22

Como já era anunciado pelo então candidato Donald Trump, a vida dos imigrantes ilegais seria muito mais complicada após a posse do presidente. Até aí, nenhuma surpresa: a promessa de campanha se cumpriria e os rigores da lei seriam aplicados, doa a quem doer. As deportações aumentaram significativamente, as fronteiras estão mais controladas e vários benefícios concedidos a imigrantes já em solo estadunidense foram revogados. A Justiça tem julgado com maior rapidez os pedidos de asilo — mais de 70% foram negados — e a tranquilidade que existia para aqueles que estão ilegais no país desapareceu.

Há uma diferença enorme entre aqueles que estão nos Estados Unidos praticando crimes graves, formando quadrilhas internacionais, traficando drogas e seres humanos ou tentando implantar o terrorismo, e aqueles que, apesar de não terem documentos, trabalham honestamente em busca de uma vida mais digna para suas famílias. Apesar dos exageros cometidos pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega, mais conhecido como Polícia da Imigração), a esmagadora maioria dos deportados e detidos tinha antecedentes criminais nos EUA ou em seus países de origem. Pela lei federal americana, o simples fato de entrar ou permanecer no país sem a devida autorização já constitui crime federal, ou seja, os Estados não têm autonomia sobre o tema.

Em várias cidades e Estados “santuários” vêm ocorrendo manifestações contra prisões e deportações. Entenda-se por “santuários” aqueles locais cujos prefeitos e governadores são mais tolerantes e aprovam leis que beneficiam imigrantes sem documentos. As manifestações em Nova York, Nova Jersey, Massachusetts e Colorado foram significativas, mas dentro da lei e sem violência. Até aí, o direito de protestar e manifestar opinião deve ser respeitado. Todavia, os eventos na Califórnia no último fim de semana foram inaceitáveis, desproporcionais e ilegais.

Infelizmente, a legislação da Califórnia tem incentivado furtos, consumo de drogas e o enfraquecimento da polícia. Depredação de patrimônio público e privado, violência, incêndios de viaturas e carros particulares e o bloqueio de vias públicas essenciais vão muito além do direito de protestar. O envio de tropas da Guarda Nacional para o Estado escancara a divergência e inimizade entre o presidente e o governador. Ambos têm algum respaldo legal para enviar ou recusar a atuação sem autorização do governador, mas a pergunta que não se cala é: quem vai pôr fim a essa violência?

Nos outros Estados “santuários”, quando as manifestações apontavam para excessos e tumultos, a polícia municipal e estadual interveio e controlou a situação sem proibir as concentrações. Por que o mesmo não ocorreu na Califórnia? Há muito mais em jogo do que a defesa dos imigrantes ilegais e suas famílias que trabalham honestamente. Além da vaidade política e animosidade entre presidente e governador, a liberalidade excessiva reinante no Estado parece estar se voltando contra ele próprio.

Para se ter ideia, nos últimos 12 anos, mais de 18 mil empresas deixaram a Califórnia. O índice demográfico está caindo, os impostos sobre imóveis subiram demais e 13 mil negócios foram fechados entre 2009 e 2016. A taxa de desemprego é a mais alta dos Estados Unidos, com mais de 150 mil desabrigados. A dívida pública do Estado é a maior entre todos os Estados, superior a US$ 600 bilhões, segundo levantamento de 2022. A gasolina é a mais cara do país e os proprietários de veículos muitas vezes deixam os vidros abertos para evitar que ladrões os quebrem em busca de laptops ou outros objetos.

O referendo popular de 2004, que não considera crime roubos ou furtos inferiores a 950 dólares, a maior liberação do consumo de drogas e a liberalidade excessiva estão cobrando a fatura. Mais de 3 milhões de americanos já saíram da Califórnia e foram residir em outros Estados. A carga tributária é a mais pesada do país e a contrapartida não é boa.

Volto a salientar: apesar dos exageros cometidos pelo ICE, a atuação catastrófica das autoridades da Califórnia reflete aquilo que foi plantado há muito tempo e que agora está sendo colhido. O número inacreditável de moradores de rua, o desemprego, a violência, o sucateamento do serviço público, a alta carga tributária e a saída de moradores e empresas explicam muitas coisas que vão além da defesa de imigrantes. Será que há algo mais grave envolvido?

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