Dennis Munhoz Publicado em 15/10/2025, às 08h20
Felizmente, o mundo assiste ao começo do fim das atrocidades cometidas durante mais de dois anos na Faixa de Gaza. Excessos foram cometidos por ambas as partes, todavia foi o grupo terrorista Hamas — assim considerado por muitos países, embora o Brasil não o reconheça como tal — quem atirou a primeira pedra, independentemente de os conflitos na região existirem há décadas.
Vale ressaltar que a paralisação das mortes e da destruição, por si só, já justifica o acordo. No entanto, ele precisa ser aprimorado e aplicado de forma robusta para garantir a estabilidade política na região. Sempre foi claro que a Palestina era dominada pelo grupo terrorista Hamas, que nunca demonstrou receio em ditar regras, manifestar-se oficialmente, julgar e executar inimigos, ameaçar países e organizar atentados terroristas ao redor do mundo.
Tudo isso custa caro. A manutenção e a estrutura de uma organização terrorista dessa dimensão envolvem milhares de pessoas, equipamentos sofisticados, logística complexa e custos adicionais imensos. O Hamas não produz riqueza — pelo contrário, apenas consome recursos. Surge então a pergunta inevitável: quem paga essa conta? De onde vem o dinheiro? Quem são os interessados na manutenção e na atuação desse grupo?
Em casos muito menores e sem a violência empregada por grupos como o Hamas, já se descobriu que ONGs pelo mundo recebem recursos de terceiros interessados em benefícios próprios, muitas vezes escusos. Em muitos conflitos, não é preciso combater o inimigo diretamente — basta sufocá-lo financeiramente, secando as fontes de quem o patrocina. Foi o que ocorreu com países mantidos pela antiga União Soviética (atual Rússia) durante o colapso financeiro no fim da década de 1980.
Sempre foi evidente que o principal patrocinador do Hamas é o Irã, com recursos provenientes do petróleo e de outras fontes alvo de sanções internacionais. Imaginar que o Irã deixaria de sustentar o grupo sem sofrer forte pressão militar e econômica é pura ilusão. Donald Trump soube explorar o tema do enriquecimento de urânio em níveis perigosos nas usinas iranianas para “matar dois coelhos com uma cajadada só”.
Os prazos para o governo de Teerã liberar a entrada de inspetores internacionais foram ignorados, e as informações sobre o enriquecimento não pacífico eram alarmantes. Aproveitando o poderio militar dos Estados Unidos, Trump ordenou um bombardeio que causou danos profundos à estrutura iraniana. Além do ataque cirúrgico e destrutivo, havia a ameaça de uma nova rodada, diante da incapacidade do Irã de reagir militarmente — uma disputa desigual, como entre um carro de Fórmula 1 e uma bicicleta motorizada.
Com a fonte financeira abalada, o Hamas foi obrigado a sentar-se à mesa de negociações. Israel, por sua vez, também foi pressionado a aceitar o acordo, que partiu de seu principal e praticamente único aliado na região. Sem o apoio dos Estados Unidos, seria impossível sustentar a ofensiva em Gaza. A ordem de Trump foi clara: cessar os bombardeios e aceitar o cessar-fogo. A cena lembrou a de um pai que ameaça colocar os dois filhos de castigo se não pararem de brigar.
Mas por que o mesmo não acontece entre Rússia e Ucrânia, que estão há quase quatro anos em guerra? A resposta está no poderio. A Rússia possui forte arsenal nuclear e conta com patrocinadores de peso. A China continua a oxigenar o governo de Vladimir Putin comprando produtos russos embargados. Outros países também burlam o bloqueio imposto pelos Estados Unidos e pela União Europeia — inclusive o Brasil, que continua comprando diesel russo desde o governo Bolsonaro, mesmo com as sanções em vigor.
Enquanto Putin mantiver o apoio chinês, continuará agindo como sempre fez: ignorando resoluções da ONU, atacando e invadindo quando achar necessário. Trump sabe disso e tenta contornar o problema. Já enquadrou o presidente da Ucrânia e alternou gestos de confronto e aproximação com Putin, sem sucesso.
Os Estados Unidos precisam se posicionar de forma mais firme sobre o tema. Enquanto Putin não sentir que a ameaça é real e iminente, nada mudará — especialmente se seu principal aliado continuar o patrocínio. O problema é mais complexo que o de Gaza: os países envolvidos são mais poderosos e, geopoliticamente, muito mais relevantes. Chegou a hora de os Estados Unidos e a comunidade europeia mostrarem força. Caso contrário, a invasão durará o tempo que Putin quiser — ou enquanto houver dinheiro para sustentá-la.