Cristiano Medina da Rocha Publicado em 26/12/2025, às 18h27
Se há uma coisa que a cidade ensina — e Guarulhos ensina bem — é que a vida não costuma oferecer tapete; oferece chão. E chão, como se sabe, é para pisar firme. Silvio Alves aprendeu isso cedo, quando ainda era menino, recém-chegado de Pernambuco, trazido ainda bebê para cá, em 1972, como quem muda de endereço sem saber que muda também de destino.
A infância dele não foi feita de enfeites. Foi feita de serviço. Vendeu jornais, engraxou sapatos, empacotou compras, circulou por aquilo que muita gente chama de “bico”, mas que, para quem depende, é escola. Escola de disciplina, de humildade e de urgência — porque a rua não perdoa distração. O que o menino aprendeu ali não estava nos livros: aprendeu a lidar com gente, a ouvir, a negociar, a entender o valor de um trocado e, sobretudo, a não ter vergonha do trabalho.
A mãe — e aqui começa o fio do empreendedor — complementava a renda vendendo roupas e relógios comprados no Brás e na 25 de Março. É uma cena comum e, por isso mesmo, poderosa: o comércio miúdo sustentando sonhos grandes. Silvio tomou aquilo como lição prática. Aos 16 anos, emancipou-se legalmente e abriu a primeira microempresa. Não era glamour; era coragem. O jovem que já conhecia o peso da vida decidiu carregar também o risco do próprio negócio.
Em 1993, veio o passo que transforma tentativa em projeto: uniu-se aos irmãos e abriu um mercadinho de 140 m² no bairro dos Pimentas, investindo o que tinham — economias e esperança, que às vezes são a mesma coisa. A filosofia era simples, mas difícil: atendimento diferenciado, produto de qualidade e preço acessível. Quem conhece o varejo sabe que prometer é fácil; manter é o que separa o comerciante do empresário.
O mercadinho virou rede, não por milagre, mas por método. Silvio sempre repetiu — e repete — que não basta crescer em quantidade; é preciso crescer em qualidade. Enquanto alguns se encantam com números, ele parece ter preferência por consistência: loja boa, cliente satisfeito, time treinado, operação sólida. O resultado foi uma expansão contínua, estruturada, e que se impôs por algo que o consumidor reconhece de longe: respeito.
Hoje, a Rede X — aquela que nasceu pequena — tornou-se grande. Cresceu, modernizou-se, ganhou novas unidades, ampliou presença na região e, além de vender, passou a empregar. E emprego, em cidade grande, é uma espécie de dignidade organizada: gente que volta para casa com salário e esperança. Quem já saiu cedo para trabalhar entende o valor disso sem discurso.
Mas a trajetória de Silvio não parou no balcão. Há um momento em que alguns empresários descobrem que podem fazer mais do que prosperar; podem representar. Desde 2020, ele assumiu a liderança de uma entidade empresarial local — e o timing não foi generoso. Um mês depois veio a pandemia: comércio abalado, empresas sufocadas, medo no ar. Era a hora em que muita gente recua. Ele, ao que consta, avançou — com ajustes, com socorro às micro e pequenas empresas, com apoio, orientação, articulação. E, enquanto o mundo estava fechado, trabalhou também por dentro: modernizou rotinas, reorganizou a casa, fortaleceu cultura institucional. Quem não vê por fora chama de detalhe; quem administra sabe que é fundação.
Os números do associativismo reagiram: a base de associados cresceu, mesmo em tempos difíceis. E quando veio a hora de continuar, houve recondução, e depois a prorrogação do mandato, não por capricho, mas por leitura do período excepcional vivido. No ciclo seguinte, as bandeiras ficaram claras: mais representatividade, mais ferramentas ao empreendedor, mais capacitação e, sobretudo, uma insistência em desburocratizar a vida de quem quer abrir e manter empresa. É uma pauta que parece abstrata para quem nunca tentou empreender; para quem já tentou, é quase uma causa moral.Em 2023, a cidade, que costuma ser dura no elogio e rápida na crítica, concedeu-lhe um título honorífico. Não é o papel que faz o homem, mas há papéis que reconhecem trajetórias.
Na solenidade, Silvio resumiu sua visão de um modo que diz muito sobre sua origem: investir em gente. É uma frase bonita; mais bonito é quando a frase combina com o percurso. Quem começou vendendo jornal entende, sem muita filosofia, que desenvolvimento não é só obra e placa — é salário no fim do mês, é oportunidade, é comércio de pé, é empreendedor não sendo tratado como suspeito.
E aqui entra um traço conhecido das disputas humanas — essas pequenas guerras civilizadas travadas por posição e influência. Há quem, em busca de um posto e do sabor do poder, mude de discurso com a mesma facilidade com que muda o paletó: ontem elogiava; hoje altera a retórica. Onde antes havia admiração, passa a haver insinuação; onde havia reconhecimento, nasce a tentativa de desmerecer. Não raro, substitui-se a crítica honesta por falácias, e a divergência por inverdades. O objetivo é antigo: diminuir o outro para parecer maior. O preço, também: desrespeitar uma história de sucesso que foi construída no duro, na marra, naquilo que o povo chama — com a precisão que só o povo tem — de “porrada da vida”.
Mas há uma consolação que a experiência dá e o tempo confirma: palavras não derrubam estruturas erguidas com trabalho. Quem já atravessou fome, cansaço, risco, cobrança e crise sabe que a retórica é vento — e vento não carrega parede de alicerce. As mesmas mãos que um dia contaram moedas para fechar o caixa aprendem a contar, mais tarde, outras coisas: confiança, entrega, reputação. E isso não se apaga com ruído.
Melhor ainda: quem convive com os atos não se deixa guiar por ecos. A falácia pode circular ligeira; a verdade, quando é vivida, caminha com passo firme. Aqueles que testemunharam as entregas, que viram a transformação, que conhecem a disposição para trabalhar e reunir pessoas, dificilmente se deixam seduzir por versões fabricadas. Podem até ouvir — é do jogo ouvir —, mas julgam com a memória e com o que viram de perto.
É por isso que a história dele incomoda alguns e inspira tantos. Não por ser perfeita — nenhuma é —, mas por ser coerente: trabalho cedo, risco assumido, negócio construído com família, expansão com método, liderança com entrega. Há quem busque posição; há quem busque resultado. E há quem descubra que a melhor maneira de liderar é continuar trabalhando como se ainda estivesse na rua, com o jornal na mão, sem tempo para vaidade.
Ao leitor fica uma conclusão simples, sem rodeios: ninguém nasce pronto, mas todo mundo pode se fazer. A diferença está na disciplina, na coragem e na constância. E se a vida lhe parecer pequena demais, lembre-se do menino que começou vendendo notícia e terminou produzindo oportunidades. No fundo, é isso que faz uma cidade crescer: gente que não esquece de onde veio — e, por isso mesmo, sabe para onde levar os outros.