Marina Roveda Publicado em 21/02/2025, às 09h22
Nos últimos anos, a experiência religiosa passou por uma transformação digna de um roteiro de Hollywood. Cultos que antes eram encontros de reflexão e comunhão passaram a rivalizar com grandes produções musicais e eventos de entretenimento. As igrejas deixaram de ser templos de introspecção para se tornarem palcos de espetáculos bem ensaiados, onde a fé precisa ser sentida com força total – de preferência entre um jogo de luzes e um refrão emocionante. A lógica é simples: se não arrepiar, não foi de Deus. Se não arrancar lágrimas, não foi profundo. Se não gerar um post motivacional no Instagram, nem valeu a pena sair de casa.
Mas será que essa overdose sensorial está fortalecendo a fé ou apenas criando consumidores viciados no próximo grande espetáculo gospel?
A imprevisibilidade virou parte do marketing dos cultos modernos. Cada reunião precisa ser maior, mais intensa, mais impactante. Afinal, se for sempre igual, como garantir que os fiéis voltarão no próximo domingo? O problema é que, em casa, a coisa desanda. Quando chega a hora da oração solitária e da leitura silenciosa da Bíblia, o cérebro já sabe o que esperar: monotonia.
E sem empolgação, o que resta? Bem, se a fé se tornou uma questão de sentir algo intenso, a resposta é óbvia: nada.
Sobre isso, a ciência tem algo a dizer. Segundo um estudo publicado na respeitada revista Nature, a quantidade de instrumentos musicais em uma canção influencia diretamente na liberação de dopamina. Em outras palavras, o worship – esse fenômeno musical onipresente nas igrejas – ativa o cérebro de um jeito inimaginável. Explico: não importa se você se emocionou “porque sentiu Deus” ou porque a progressão de acordes foi meticulosamente planejada para tocar sua alma. O efeito é o mesmo.
A dopamina é o mesmo neurotransmissor que nos mantém grudados no TikTok, que nos faz devorar uma barra de chocolate inteira e que torna impossível assistir a apenas um episódio de uma série. Ela recompensa o prazer imediato e exige sempre mais. No contexto dos cultos, isso significa que o fiel já não se contenta com um templo de oração comum.
O problema é que essa obsessão pelo sensorial substitui o que realmente importa. O evangelho sempre foi – e deve continuar sendo – sobre transformação, renovação da mente e crescimento espiritual.
Sem show, ainda existe fé?
Pastores e líderes precisam decidir se estão formando discípulos ou apenas mantendo um público cativo com espetáculos emocionantes. Cultos podem ser impactantes, mas, se a fé morre no silêncio do quarto, o problema é bem maior do que a falta de um bom setlist.
E os fiéis? Bem, a pergunta que ninguém quer responder é: sem a iluminação perfeita, sem o baixo pulsante e sem a sensação de arrebatamento coletivo, sua devoção ainda existe? Ou a presença de Deus só é real quando acompanhada de um setlist bem montado? Talvez o problema não esteja no culto – mas na maneira como aprendemos a nos relacionar com o Divino.
Afinal, Deus não precisa de um pedal de delay para se fazer presente. O problema é que, sem ele, muita gente já não consegue mais escutá-Lo.
Enfim, viciados em cultos potentes e devocionais fracos. É assim que a espiritualidade se esvazia enquanto o show da fé continua.