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Uma inspiração na guerra contra a Dengue

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Uma inspiração na guerra contra a Dengue

Como professor de uma das mais conceituadas Faculdades de Medicina do Brasil, a Fameca, da cidade de Catanduva (SP), é uma satisfação incapaz de ser mensurada ver o trabalho de vanguarda da jovem Luisa Hamra, 19 anos, ser premiado internacionalmente, ser destaque no portal da Forbes e ser promovido pelo núcleo de colaboração e inovação social da Universidade de Harvard.

Nascida também em Catanduva, Luisa presenciou no início de 2015 a maior epidemia de dengue da história do município. Naquele ano, foram registrados, até o final de março, mais de 10.000 casos da doença, em uma população de 118 mil habitantes, ou seja, um cidadão infectado para cada 11 moradores. Eu mesmo fui uma dessas vítimas!

Somente na família de Luisa, mais da metade teve dengue. Uma enorme preocupação para a jovenzinha, pois existia o dobro do risco de todos contraírem a doença novamente, que é quando ela fica muito mais séria e pode alcançar até a versão hemorrágica.

Diante da situação, a “gloriosa guerreira” (este é o significado do nome Luisa) decidiu se alistar nesta guerra e estudar por conta própria a morfologia e o comportamento do Aedes aegypti. Em suas pesquisas, descobriu não só que o mosquito consegue identificar locais com potencial para se tornarem focos de água parada como também que a forma mais utilizada de combate ao mosquito, o fumacê, um veículo com pulverizador de inseticida acoplado, é ineficaz.

Ela está correta: “O Aedes aegypti é extremamente resistente e tem uma capacidade de mutação genética muito grande. O fumacê só atinge mosquitos que estiverem voando, mas o hábito da espécie é passar a maior parte do tempo parada. Logo, isso [o fumacê] só faz com que eles fiquem mais resistentes e não elimina os criadouros”. Para piorar, em março de 2015, um dos componentes utilizados no inseticida, Malathion, foi classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como potencial cancerígeno.

Depois de identificar os hábitos e a estrutura morfológica da larva do mosquito, Luisa, que em 2015 tinha 16 anos e cursava o segundo ano do ensino médio, chegou a um método para combater a proliferação do Aedes aegypti. Ao somar os conhecimentos em química adquiridos na escola às suas pesquisas na internet, a estudante desenvolveu no banheiro de sua casa, com equipamentos caseiros e componentes encontrados em produtos de supermercados, um gel adesivo capaz de matar as larvas do Aedes aegypti.

O gel, fixado em locais propícios para se tornarem focos de proliferação, tem comportamento similar ao ovo do mosquito, já que só é ativado quando em contato direto com a água. O produto tem a capacidade de destruir as larvas do Aedes aegypti em menos de 24 horas e de repelir o mosquito com a ação da citronela. Desta forma, evita que haja nova desova no local onde está o adesivo. Segundo a estudante, uma única unidade pode manter o lugar livre da praga por, pelo menos, duas semanas.

A iniciativa da jovem repercutiu internacionalmente. Em 2016, entre 73 inscritos, Luisa teve seu projeto premiado pelo concurso Village to Raise a Child, promovido pelo núcleo de colaboração e inovação social da Universidade de Harvard. A competição contemplou cinco iniciativas de jovens empreendedores que propuseram soluções a problemas enfrentados por suas comunidades. Em 2017, os estudantes escolhidos passaram por uma semana de capacitação na Universidade de Harvard, receberam recursos para o financiamento de seus projetos, além de apresentarem suas ideias no Igniting Innovation Summit, evento que aborda inovações sociais.

No momento, o produto desenvolvido pela jovem está em fase de patente, com previsão de finalização ainda neste ano. Para a estudante, a viabilidade de fabricação do adesivo é alta, devido ao baixo custo de produção e a simplicidade do processo. Para mim, o exemplo de Luisa Hamra é mais poderoso que a arma que ela desenvolveu, pois é fonte de inspiração. Ela olhou para dentro de si e  buscou o melhor caminho a seguir, aquele que a levará não apenas ao sucesso, mas também à felicidade. Dela e de todos nós.

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