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Renzo Angerami: Cães farejadores auxiliam Polícia Civil na descoberta de ossadas em cemitério clandestino

Redação SP
Escrito por Redação SP

Cães farejadores auxiliam Polícia Civil na descoberta de ossadas em cemitério clandestino

No mês passado falei nesta coluna, com o título: “Polícia Civil X Crime Organizado: Respeito aos Direitos Humanos e ao Direito dos Animais”, sobre a operação policial realizada sob direção do Delegado de Polícia, Dr. Carlos Alberto da Cunha, que culminou na prisão de Wislan Ramos Ferreira, o “Jagunço”, acusado de liderar um “Tribunal do Crime” de uma facção criminosa que age na região leste de São Paulo.

Na ocasião, fui convidado para participar da missão porque a casa em “Jagunço” se encontra escondido, na cidade de Itaquaquecetuba, ficava em um lugar que dificultava a incursão dos policiais e era vigiada por cães da raça pitbull. Com o apoio de um médico veterinário, colaborador do “Projeto Leis e Bichos”, que integro, foi escolhido um método seguro para deixar os animais sonolentos, de modo que não atacassem os policiais, não alertassem o suspeito e demais pessoas que estivessem na casa e, principalmente, para que não fossem feridos durante a ação policial.

Como amplamente divulgado pela mídia, a operação foi um sucesso e, também, um verdadeiro marco, uma vez que demonstrou de forma inequívoca o compromisso da Polícia Civil com a legalidade, com a garantia dos direitos humanos e, de maneira especial, com a preservação e respeito aos animais.

Com a prisão de “Jagunço”, suspeito de participar de cerca de cem homicídios, o trabalho não cessou para a equipe do Dr. Da Cunha, que continuou as diligências visando descobrir vítimas desse suposto “Tribunal do Crime” e onde seus corpos estariam enterrados.

Apenas para esclarecer, “Tribunal do Crime” é um nome dado a reuniões organizadas pelo crime organizado, por meio de suas facções criminosas, onde se cria um sistema de justiça colateral, com capacidade de julgar e condenar àqueles que venham a descumprir ordens e regras estabelecidas pela facção ou que prejudiquem seus negócios ilícitos. Esses tribunais são estabelecidos com base em execuções preordenadas, calcadas em violência extrema, cujos executados, não raro, são enterrados em locais ermos, de difícil acesso, conhecidos por “cemitérios clandestinos”, criando verdadeiro poder paralelo em relação ao Estado.

Por meio de brilhante trabalho investigativo, o Dr. Da Cunha e sua equipe chegaram a duas áreas de mata, uma no Jardim Santa Terezinha e outra no Parque Savoy, ambas na zona leste da Capital, onde corpos julgados e executados pelo “Tribunal do Crime”, sob o comando de “Jagunço”, teriam sido enterrados.

 Então, na última terça-feira, 23, mais uma vez, fui acionado para participar da ação e, juntamente com nossos  parceiros da Guarda Civil de São Paulo, sob o comando do ID Manoel Arlindo Barbosa, com seus maravilhosos cães farejadores, nos pusemos a auxiliar nesse difícil trabalho de localização de corpos ocultos.

As áreas onde os corpos estariam enterrados eram cobertas por mata, de difícil acesso, com térreo acidentado, lixo e somavam, ao todo, aproximadamente, 15.000 m².  O trabalho teve início por volta das 07h e somente no meio da tarde um local foi apontado pelos cães farejadores como possível cova. Na terça-feira, 23, quatro ossadas foram encontradas, mas o trabalho não parou por aí. Na quarta-feira, 24, novamente toda a equipe, incluindo nossos cães heróis, iniciaram nova busca que culminou na descoberta de mais duas ossadas.

Após a descoberta das ossadas a Polícia Civil, com sua equipe de pericias, deve trabalhar com foco na identificação dos restos mortais encontrados, bem como na investigação de todas as circunstâncias e razões que motivaram as execuções.

Sem sombra de dúvidas a operação realizada pela Polícia Civil paulista demonstra a excelência do trabalho em rede, com a união de conhecimentos multidisciplinares, em prol da elucidação de crimes, combate ao Crime Organizado e busca da Justiça.

Mas faço a seguinte pergunta: sem a participação dos cães farejadores essa operação teria o mesmo resultado? O mesmo sucesso?

Ouso dizer que essa ação não seria a mesma sem a participação dos cães. É certo que a experiente equipe, com policiais, guardas e peritos, cedo ou tarde, chegaria aos locais onde as ossadas estavam enterradas, que se ressalte, não eram tão próximos uns dos outros. Mas em quanto tempo? Quanto de recursos, humanos e materiais, seria necessário para escarafunchar e escavar toda aquela imensa área em busca de corpos?

Quantos meses seriam necessários para que homens e escavadeiras conseguissem encontrar o que focinhos treinados, com um faro que a natureza concedeu apenas a sua espécie, conseguiram encontrar em algumas horas?

Eis a reflexão que proponho: por mais inteligente e competente que o homem seja a natureza coloca dons específicos para cada espécie.

 O exemplo da coparticipação de animais no combate ao crime e na conseguinte aplicação da justiça reforça a ideia de que o progresso moral da humanidade, além do respeito mútuo que deve haver entre os homens, esta intrinsecamente ligado a sua capacidade de convivência harmônica e respeitosa com todas as espécies de seres vivos não humanos.

 Quem quiser saber os detalhes dessa operação poderá conferir em @leisebichos, @delegado_da_cunha

 

 

 

Renzo Angerami é Chefe dos Investigadores da Delegacia de Polícia do Meio Ambiente de Santo André e idealizador do Projeto Leis e Bichos

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