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Reinaldo Polito: Com inimigo não se brinca

Redação SP

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Reinaldo Polito: Com inimigo não se brinca

Com inimigo não se brinca

 

Quando eu, meu irmão, meus primos e toda garotada da rua invadíamos o sagrado espaço da cozinha, defendido com olhares de censura pela minha avó Joana, depois de duas ou três brincadeiras mais ruidosas, ela nos dizia pausadamente do alto de sua sabedoria cultivada pelos anos de experiência: graça por graça uma vez só basta. Acusávamos a reprimenda e batíamos em retirada. Aprendi assim, depois de levar muitos desses puxões de orelhas, que brincadeiras ruidosas podem irritar algumas pessoas e que não é um comportamento bem-vindo em todos os lugares.

Mas, brincar pode? Pode e deve. A vida com alegria é quase um sinônimo de felicidade. Pessoas bem-humoradas, de espírito leve são muito bem recebidas em praticamente todas as rodas de conversa.

E aqui entra um complicômetro do relacionamento humano. As piadas e brincadeiras barulhentas, além de irritar as Joanas da vida, quase sempre, prejudicam a imagem do engraçadinho. O humor sutil, refinado transforma-se num atestado de inteligência e de preparo intelectual. Enquanto o trocadilho grosseiro e a piada rasteira demonstram rusticidade social, a ironia fina e as tiradas espirituosas espontâneas leves atestam originalidade e formação requintada. Só que, por ser sutil, o mesmo humor que pode nos projetar, pode também, às vezes, nos trazer aborrecimentos. A sutileza do humor funciona quando o interlocutor também é dotado de sensibilidade e massa cinzenta. Sem contar que o humor sutil, além de não ser entendido por todos, pode se transformar numa poderosa arma nas mãos dos nossos inimigos e adversários. Esses traíras de plantão ficam aguardando a oportunidade para dar o bote e nos atacar. Pegam ao pé da letra as palavras que deveriam ser entendidas apenas no sentido figurado, fingem que não entenderam a intenção sutil da brincadeira e se mostram, normalmente diante de outras pessoas, indignados. E ficamos desesperados dando explicações de que tudo não passou de uma ingênua brincadeira. Por isso, quando suspeitar da presença de algum inimigo na conversa, não vacile. Faça brincadeiras com sutileza, use o humor sutil, que é a medida do seu preparo e a marca da sua inteligência, mas exagere na maneira de comunicar. Fale fazendo caretas, imitando vozes estranhas, use pausas mais prolongadas, para que não fique nenhuma dúvida de que a intenção é muito distinta do que a mensagem direta comunica. Na dúvida, não arrisque e fique na sua.

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