Após denúncias de ameaças misóginas e racistas, a DEIC inicia investigação para garantir a segurança das parlamentares em São Paulo

William Oliveira Publicado em 12/06/2025, às 08h57
A Divisão de Crimes Cibernéticos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) instaurou, na última terça-feira (10), um inquérito para investigar o envio de um e-mail contendo ameaças de morte e estupro dirigidas a deputadas da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).
A investigação teve início nove dias após a formalização de uma notícia-crime pelas parlamentares. No documento, protocolado no dia 2 de junho, elas relataram ameaças misóginas e racistas, incluindo a possibilidade de uma invasão armada à sede da Alesp, além de menções explícitas a feminicídio, estupro de vulnerável e violência sexual.
A deputada Andréa Werner (PSB), uma das principais alvos do e-mail e líder de seu partido na Alesp, manifestou frustração diante da demora nas respostas oficiais.
“Faço muitas palestras, muitas visitas a entidades. Estou sempre em cidades diferentes, então isso me preocupa. Não posso dizer que estou tranquila só porque foi feito um boletim e está sendo investigado. Só vou estar tranquila quando essa pessoa for identificada de fato, presa, processada”, lamentou a deputada.
A queixa foi direcionada ao Decradi (Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania) e ao Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), este último especializado no monitoramento de redes sociais e ambientes digitais, com foco em cyberbullying, automutilação e outros crimes virtuais.
Vale lembrar que a queixa-crime difere da denúncia: enquanto a primeira é uma petição judicial relacionada a delitos específicos, a segunda abrange crimes que afetam a coletividade.
Treze das 24 deputadas estaduais assinaram o documento, que elenca acusações como injúria racial, intolerância religiosa, ameaça e violência política de gênero.
No dia seguinte à formalização da queixa, em 3 de junho, as parlamentares reuniram-se com o presidente da Alesp, André do Prado (PL), e com representantes da Polícia Civil e da Polícia Militar para discutir medidas de segurança. Até o momento, não há confirmação sobre o reforço do policiamento na Casa Legislativa.
Diante da gravidade do episódio, a deputada Andréa Werner solicitou a disponibilização de um veículo blindado e propôs a revisão dos protocolos de acesso ao prédio da Alesp.
“Fui uma das pessoas citadas nominalmente no e-mail, então foi algo que me abalou muito. Nunca havia sofrido nenhuma ameaça de morte. É o meu primeiro mandato. Me preocupo com a minha família - é óbvio que a gente se preocupa, ainda mais quando tem filho. E o carro blindado não protege 100% do tempo, porque em algum momento você vai sair dele”, destacou.
O presidente André do Prado declarou que a concessão de escoltas será analisada individualmente e que as normas de segurança da Alesp serão aprimoradas. “Por determinação da presidência, as Polícias Civil e Militar foram acionadas e investigam o caso”, afirmou.
A Polícia Civil informou que o suspeito de ter enviado o e-mail já foi identificado. Ele alegou, em depoimento, ter tido seus dados pessoais utilizados de forma indevida. Seu celular e notebook foram apreendidos para perícia técnica.
O conteúdo do e-mail trazia mensagens ofensivas de cunho misógino e racista, direcionadas diretamente a algumas parlamentares. O caso foi reportado oficialmente à presidência da Alesp e às forças policiais.
Em nota oficial, o presidente André do Prado manifestou solidariedade às deputadas e reiterou: “Nenhuma agressão pode ser tolerada”.
As parlamentares, por sua vez, divulgaram uma nota conjunta, classificando o episódio como uma tentativa deliberada de silenciar mulheres que exercem funções públicas. Ressaltaram a urgência na implementação de políticas públicas contra a violência política de gênero.
A deputada Andréa Werner concluiu com um apelo: “Essa situação revela a necessidade urgente de ações eficazes sobre o uso seguro das redes sociais. Trata-se de um ataque aos direitos das mulheres de ocupar espaços políticos — espaços já tão escassos para nós”.
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