Pesquisadores alertam sobre precariedade em laboratórios após extinção da Sucen, afetando o controle de dengue e outras doenças

Letícia Sales Publicado em 12/01/2026, às 09h24
Pesquisadores que atuam no controle de doenças endêmicas em São Paulo, como dengue, febre amarela e doença de Chagas, denunciam um cenário de abandono e precariedade em laboratórios vinculados à extinta Superintendência de Controle de Endemias (Sucen). O órgão foi extinto por lei aprovada pela Assembleia Legislativa (Alesp) em 2020 e desativado em 2022, no contexto de um corte de gastos do governo estadual. Suas estruturas foram transferidas para o Instituto Pasteur e para a Coordenadoria de Controle de Doenças.
De acordo com a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), a transição foi mal planejada. “Desde a extinção da Sucen, mais de dez laboratórios estão sem CNPJ, atuando de forma precária e informal no Instituto Pasteur, que depende de uma reestruturação administrativa para receber oficialmente a estrutura da Sucen”, afirma a associação.
Os pesquisadores relatam que equipamentos que custam centenas de milhares de reais estão sem manutenção adequada. Eles também perderam a autonomia para comprar insumos básicos e não têm mais veículos apropriados para coletar amostras em campo, dependendo de empréstimos de outros setores. O pesquisador Horácio Teles, conselheiro da APqC, descreve a dificuldade:
“Fica muito difícil, sempre é muito trabalhoso requisitar um veículo, fazer um trabalho, fazer a prestação de contas de despesas. Tudo isso ficou muito complicado. E permanece até hoje”.
A situação, segundo os relatos, gerou um "apagão de dados", com a perda de acesso a bancos de informações históricas sobre a evolução de mosquitos e outros vetores, essenciais para o monitoramento epidemiológico. Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC, explica que a extinção desmontou um serviço vital, especialmente para o interior. “A Sucen tem um papel muito importante no interior. Porque essa atribuição do controle das endemias, os municípios pequenos não têm condições de fazer. Eles não têm estrutura para isso. Então, o impacto sobre essa questão foi muito grande, porque desestruturou muito a forma de trabalho”, afirma.
Linhas de pesquisa essenciais teriam sido interrompidas. “Este monitoramento e investigação sobre animais contaminados pela Trypanosoma cruzi são essenciais para que o Estado assuma o seu papel de coordenação para orientar a Vigilância Epidemiológica dos municípios, o que vai garantir a prevenção adequada para evitar que pessoas sejam picadas pelo inseto contaminado. Mas a desestruturação da Sucen comprometeu este serviço essencial”, acrescenta Helena.
A estrutura também foi fragmentada. “Este ‘racha’ na estrutura da Sucen comprometeu a sinergia entre a pesquisa, que direciona as ações, e o controle de doenças, que era realizado pelos servidores especializados. Para se ter ideia, os pesquisadores não contam nem mesmo com veículo apropriado para coleta de amostras de campo”, reitera Horácio Teles.
Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde (SES) negou as acusações. A pasta afirmou que a extinção da Sucen fez parte de um processo de modernização, alegando que “a medida resultou em maior integração das ações, iniciativas e estratégias de vigilância e controle de endemias”. O governo estadual garantiu que “toda e qualquer solicitação, seja de insumos para os laboratórios ou de veículos para as ações de vigilância, é realizada por meio da SES” e que “não há falta de insumos ou de manutenção, assim como não há pesquisas paralisadas em razão da incorporação da Sucen à CCD. Os prédios e as equipes técnicas, administrativas, de campo e de laboratório seguem com suas atividades normalmente”.
A nota concluiu detalhando ações em curso: “Por fim, os técnicos do Instituto Pasteur, vinculados à CCD, realizam capacitações com agentes de saúde de todo o estado de São Paulo para a identificação do inseto triatomíneo (barbeiro), a realização de exames do conteúdo intestinal para verificação da positividade por Trypanosoma cruzi, além do manejo ambiental e do controle químico, quando necessário”.
O impasse coloca em risco a capacidade de resposta do Estado a surtos de doenças que dependem de monitoramento constante e pesquisa aplicada, em um momento em que as mudanças climáticas e a urbanização intensificam os desafios na área de saúde pública.
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