Alta é impulsionada por acidentes com motocicletas e escancara falhas de infraestrutura, fiscalização e políticas públicas, aponta estudo.

Ana Beatriz Publicado em 27/01/2026, às 15h48
O Brasil voltou a registrar um patamar crítico de mortes no trânsito. Em 2024, 37.150 pessoas perderam a vida em acidentes nas vias do país, número 6,5% maior que o de 2023 e o mais alto desde 2016. Os dados fazem parte de um estudo da Vital Strategies, elaborado a partir de informações do Ministério da Saúde.
Pela primeira vez desde o início da série histórica, em 2010, o Nordeste assumiu a liderança absoluta em número de mortes no trânsito. A região somou 11.894 óbitos em 2024, superando o Sudeste, que registrou 10.995 mortes, apesar de concentrar a maior frota de veículos do país.
A comparação entre frota e letalidade preocupa especialistas. Em dezembro de 2024, o Sudeste tinha cerca de 59 milhões de veículos cadastrados, mais que o dobro dos 22,3 milhões do Nordeste, segundo dados da Senatran. Ainda assim, o número absoluto de mortes foi maior no Nordeste.
Quando analisada a taxa proporcional, o Centro-Oeste segue como a região mais letal, com 24,5 mortes a cada 100 mil habitantes. Norte e Nordeste aparecem logo atrás, com índices de 21 e 20,8, respectivamente. O Sudeste apresenta a menor taxa nacional, de 12,4.
Mortes no trânsito por ano

De acordo com os responsáveis pelo estudo, o avanço das mortes de motociclistas é o principal fator por trás da mudança no ranking regional. Somente no Nordeste, 6.116 pessoas morreram em acidentes envolvendo motos em 2024 — número 60% superior ao registrado no Sudeste. No Norte e no Nordeste, mais da metade das vítimas fatais do trânsito estava em motocicletas.
“Em 2010, o Nordeste tinha um número de mortes de motociclistas semelhante ao do Sudeste. O Sudeste manteve esse patamar, enquanto o Nordeste quase dobrou”, afirma Dante Rosado, coordenador do programa de segurança viária da Vital Strategies no Brasil. Segundo ele, o risco se intensifica quando há infraestrutura precária e baixa fiscalização de velocidade.
O cenário é agravado pela qualidade das estradas. Seis das 12 rodovias consideradas em péssimo estado pela Confederação Nacional do Transporte estão no Nordeste. O problema, segundo especialistas, também se repete em áreas urbanas e rurais, onde é comum o uso inadequado da motocicleta, inclusive para transportar mais passageiros do que o permitido.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma adotar uma abordagem preventiva para enfrentar a violência no trânsito. Entre as medidas citadas pelo Ministério dos Transportes estão o programa CNH Brasil, que facilita o acesso à habilitação, e a MP do Bom Condutor, que prevê renovação automática da carteira para motoristas sem infrações recentes.
Apesar das iniciativas, especialistas avaliam que as políticas ainda são insuficientes. Para Diogo Lemos, da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, os números refletem escolhas estruturais equivocadas. Ele defende investimentos em transporte público, fiscalização efetiva, infraestrutura segura e políticas nacionais que cheguem também aos pequenos municípios.
O Ministério dos Transportes afirma que atua por meio do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito, que prevê a redução de ao menos 50% das mortes até 2030. No entanto, programas específicos voltados à segurança de motociclistas seguem em elaboração e ainda não foram concluídos.
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