Condenado em duas instâncias por estupro e cárcere privado, fundador do Art Popular voltou a negar os crimes em entrevista exibida neste domingo, enquanto o caso expõe a disputa entre a versão da defesa, o relato da vítima e o peso jurídico de mensagens interpretadas pela Justiça como confissão.

Ana Beatriz Publicado em 13/04/2026, às 12h27
Leandro Lehart, fundador do grupo Art Popular, foi condenado a 9 anos e 7 meses de prisão por estupro e cárcere privado, com a decisão mantida em segunda instância, embora continue em liberdade enquanto houver possibilidade de recurso.
As acusações surgiram de um incidente em 2019, onde a vítima, Rita de Cássia, alegou ter sido submetida a violência sexual e mantida em cativeiro, com a Justiça considerando mensagens trocadas entre eles como evidência crucial para a condenação.
Lehart tenta reverter a condenação por meio de recursos legais e busca mudar a percepção pública sobre o caso, que ganhou notoriedade devido à sua carreira e à discussão sobre a responsabilização de celebridades em casos de violência contra a mulher.
Leandro Lehart, fundador do grupo Art Popular, reapareceu publicamente em entrevista exibida no domingo, 12 de abril de 2026, no Domingo Espetacular, da Record, dias depois de ter a condenação mantida em segunda instância pelos crimes de estupro e cárcere privado. A pena fixada pela Justiça de São Paulo é de 9 anos, 7 meses e 6 dias de reclusão, além de 24 dias-multa. Ele continua em liberdade enquanto ainda houver possibilidade de recurso.
Na entrevista, Lehart negou as acusações, disse ser alvo de uma “fantasia criada” e sustentou que não houve prova material dos crimes. O cantor afirmou que foi condenado não pelo que teria feito, mas pela interpretação de mensagens trocadas com Rita de Cássia Corrêa, mulher que o denunciou. Já a Justiça entendeu que esse conteúdo foi decisivo para corroborar a versão da vítima e caracterizar uma confissão relevante no contexto do processo, que corre sob segredo de Justiça.
O caso tem origem em fatos apontados como ocorridos em outubro de 2019, dentro da casa do músico, em São Paulo. Segundo a acusação, Rita de Cássia, com quem Lehart teria mantido uma relação anterior consensual, foi submetida a violência sexual e mantida em situação de privação de liberdade. Em 2021, ela formalizou a denúncia à polícia. Antes disso, em outubro de 2020, o próprio cantor havia registrado um boletim de ocorrência alegando ameaça. Esse encadeamento passou a ser um dos pontos centrais da disputa entre acusação e defesa.
A reaparição de Leandro Lehart ocorreu mais de quatro anos depois do início da crise judicial e de imagem. Na conversa com Roberto Cabrini, ele tentou desmontar a acusação peça por peça, questionando a ausência de um dia e horário exatos no relato da denunciante e afirmando que não existe comprovação técnica do que foi descrito. Também repetiu que trechos de conversas teriam sido destacados fora de contexto, transformando um diálogo que, segundo ele, seria “emocional” em uma admissão formal de culpa.
Mas esse é justamente o ponto em que a narrativa pública esbarra na leitura jurídica do caso. O Judiciário paulista já concluiu, em primeira e segunda instâncias, que o conjunto probatório sustentou a condenação. Em setembro de 2022, a 17ª Vara Criminal de São Paulo condenou o artista pelos dois crimes. Em setembro de 2024, a Justiça de São Paulo negou recurso da defesa e manteve a sentença. Segundo a defesa do cantor, ainda havia, à época, espaço para novos recursos, incluindo embargos no próprio TJSP e eventual discussão em tribunais superiores.
O caso ganhou enorme repercussão porque envolve uma figura pública associada há décadas ao sucesso popular. Paulo Leandro Fernandes Soares, nome de batismo do artista, ficou nacionalmente conhecido nos anos 1990 como criador do Art Popular e compositor de hits que ajudaram a moldar uma fase importante do pagode romântico e comercial no Brasil. Sua projeção pública, no entanto, passou a conviver com a condição de réu condenado por crimes graves, num processo que atingiu em cheio sua imagem e reabriu o debate sobre a responsabilização de celebridades em casos de violência contra a mulher.
Outro aspecto que mantém o caso sob forte atenção pública é o peso atribuído às mensagens trocadas entre Leandro e Rita. Na entrevista mais recente, ele admitiu ter escrito determinados trechos, mas insistiu que o conteúdo não pode ser lido como confissão literal. Ainda assim, a versão consolidada na cobertura jornalística aponta que essas conversas foram consideradas fundamentais no entendimento judicial que levou à condenação. A Record resumiu esse ponto ao afirmar que as mensagens foram “fundamentais” e que a Justiça viu nelas a confissão do músico.
A complexidade do caso também está na forma como a vítima descreveu as consequências emocionais do episódio. Em reportagens anteriores, Rita de Cássia relatou vergonha, perda de dignidade e forte abalo psicológico. O caso, desde o início, foi tratado como conteúdo sensível por veículos de imprensa, e a própria defesa da vítima já havia afirmado que ela teve a vida profundamente impactada pela violência denunciada e pela exposição do processo.
A estratégia atual de Leandro parece combinar duas frentes. A primeira é jurídica: insistir que a condenação ainda não transitou em julgado e buscar reversão em novas instâncias. A segunda é narrativa: disputar a opinião pública, contestando a leitura das provas e tentando reposicionar sua fala como a de alguém injustamente condenado. Na entrevista exibida no domingo, o artista afirmou que seu objetivo é provar inocência e seguir trabalhando.
Mesmo assim, o ponto mais duro permanece intacto: não se trata mais apenas de uma denúncia ou de uma investigação preliminar. Leandro Lehart já foi condenado em primeira instância e teve a sentença mantida em segunda instância. Isso muda o patamar do caso. A discussão agora não é mais se houve ou não avanço processual, mas até onde a defesa conseguirá ir para tentar reverter uma condenação já confirmada por órgão colegiado.
No centro de tudo está uma pergunta que ultrapassa o universo jurídico e alcança a sociedade: como um artista celebrado por décadas chega ao ponto de ter sua trajetória pública atravessada por uma condenação por estupro e cárcere privado? A entrevista deste domingo não encerrou o caso. Ao contrário: recolocou o tema no debate nacional e ampliou a pressão sobre o desfecho definitivo da disputa judicial.
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