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Meio Ambiente

Incinerador barrado por suspeita de falsificação segue operando em Itapevi

Parecer técnico reprova operação da Sistema Nova Ambiental, aponta falhas graves e levanta dúvidas sobre continuidade da atividade mesmo sem licença

Incinerador industrial (imagem ilustrativa) - Imagem: Reprodução
Incinerador industrial (imagem ilustrativa) - Imagem: Reprodução

Redação Publicado em 09/04/2026, às 07h49


A rotina dos moradores de Itapevi, na Grande São Paulo, passou a conviver com uma preocupação silenciosa. Em meio a bairros populosos, um incinerador industrial que deveria estar parado continua recebendo resíduos perigosos, mesmo após ser formalmente reprovado pelo órgão ambiental do Estado.

A decisão partiu da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, a CETESB. Em parecer técnico emitido em 20 de março de 2026, o órgão negou a Licença de Operação do incinerador da empresa Sistema Nova Ambiental, instalado no município de Itapevi.

O documento é categórico. Segundo a análise técnica, o equipamento não atende à legislação ambiental, os testes apresentados não possuem validade científica e, portanto, a operação não pode ser autorizada.

Na prática, isso deveria significar a paralisação imediata das atividades.

Mas não é o que moradores, especialistas e o próprio fluxo de resíduos indicam.

Testes inválidos e suspeita sobre resultados

O ponto central da reprovação está na fragilidade dos testes realizados pela empresa. O parecer da CETESB aponta que os resultados apresentados para substâncias altamente tóxicas, como dioxinas e furanos, não podem ser aceitos.

A avaliação técnica indica inconsistências relevantes que levaram à invalidação dos testes. Em termos práticos, isso significa que os dados apresentados não oferecem confiabilidade suficiente para sustentar o licenciamento ambiental.

Sem teste válido, não existe base legal nem técnica para autorizar a operação de um incinerador.

Mesmo assim, os dados analisados já indicavam problemas relevantes. Foram registradas emissões acima dos limites legais, presença de poluentes perigosos e variações significativas no funcionamento do equipamento.

Entre os pontos mais críticos está a emissão de ácido clorídrico em níveis superiores ao permitido. Trata se de uma substância altamente corrosiva, que, quando liberada no ambiente, pode causar impactos diretos à saúde e ao meio ambiente.

Especialistas explicam que um incinerador que não mantém estabilidade nas emissões é considerado tecnicamente inseguro. Isso porque a variação indica falta de controle no processo de queima, aumentando o risco de liberação de poluentes tóxicos.

Decisão oficial não se reflete na prática

Diante desse cenário, a CETESB indeferiu a licença de operação. Isso significa que a unidade não está autorizada a funcionar, não pode processar resíduos e não deveria receber nenhum tipo de material para incineração.

Mesmo assim, a realidade observada levanta questionamentos.

Relatos indicam que a unidade segue recebendo resíduos perigosos de clientes, mesmo sem licença válida, sem testes aprovados e sem comprovação de eficiência ambiental.

Esse descompasso entre a decisão técnica e a operação prática preocupa.

Se confirmado, o envio de resíduos para uma estrutura reprovada pode representar risco direto à população e ao meio ambiente, além de possíveis irregularidades na destinação desses materiais.

Risco em área urbana

O incinerador não está isolado. Ele funciona em uma região urbana, próxima a áreas habitadas, o que amplia a preocupação.

De acordo com registros públicos, já existem reclamações e autuações relacionadas à emissão de odores no local.

Mas o problema pode ir além do desconforto.

As substâncias envolvidas, como dioxinas e furanos, são reconhecidas internacionalmente por sua alta toxicidade. Elas se acumulam no ambiente e no organismo humano ao longo do tempo e estão associadas a doenças graves, incluindo câncer, alterações hormonais e danos ao sistema imunológico.

Não se trata de um impacto imediato, mas de um risco silencioso e persistente.

Princípio básico ignorado

Em processos de incineração, existe uma regra fundamental: equipamentos em fase de teste ou sem validação não devem operar com resíduos perigosos reais.

O correto é utilizar cargas controladas e livres de contaminantes, justamente para garantir que o sistema funcione de forma segura antes de ser liberado.

No caso de Itapevi, esse princípio pode não ter sido respeitado.

Se confirmado, a utilização do incinerador sem validação técnica adequada representa uma falha grave de segurança operacional.

CETESB reforça fiscalização e pode acionar outros órgãos

Procurada, a CETESB informou que atua com base em critérios técnicos e que a decisão de indeferir a licença seguiu rigorosamente a legislação ambiental.

O órgão destacou que mantém fiscalização sobre o caso e que, caso sejam comprovadas irregularidades, inclusive eventual falsidade documental ou inconsistência de informações apresentadas, todos os órgãos competentes poderão ser acionados para investigação e responsabilização.

Isso inclui instâncias administrativas, ambientais e até criminais.

Um alerta que vai além de Itapevi

O caso deixa de ser um episódio isolado e passa a levantar uma discussão mais ampla sobre o controle de resíduos perigosos no Estado.

Em um sistema que depende de rastreabilidade e cumprimento rigoroso das regras, a existência de uma operação barrada no papel, mas aparentemente ativa na prática, expõe fragilidades que precisam ser investigadas.

A pergunta que permanece é direta.

Se a operação foi tecnicamente reprovada e formalmente impedida, como os resíduos continuam chegando ao local.


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