
por Marlene Theodoro Polito
Publicado em 07/04/2026, às 10h33
Diante de um painel de azulejos da Alhambra, o olhar procura um ponto de apoio. Não encontra. Não há figura central. Não há início nem fim. Não há narrativa a seguir. O que se oferece não é uma imagem a ser compreendida, mas um campo a ser atravessado. Linhas se cruzam, retornam, se expandem em direções que escapam a qualquer tentativa de apreensão. Pouco a pouco, algo muda. O olhar desacelera. Desiste de dominar. E começa, enfim, a seguir. Essa experiência não surge por acaso.
A arte islâmica, desenvolvida a partir do século VII, acompanhou a expansão do Islã. Refletiu, desde o início, seus valores espirituais. Ao longo do tempo, estruturou-se em torno de alguns eixos marcantes: a religião, a arquitetura monumental, a caligrafia e as artes decorativas. Ganhou forma nos grandes impérios omíada, abássida, safávida e otomano. Talvez por isso, diante dessas imagens, o olhar percorra os padrões sem cessar. Sem encontrar um ponto de repouso.
Religião, quando a imagem recua
Na tradição islâmica, especialmente nos espaços sagrados, a representação de figuras humanas é evitada. Não se trata apenas de proibição, mas de uma escolha que revela uma visão de mundo: evitar que a imagem seja confundida com o próprio divino. Ao invés de fixar Deus em uma forma, a arte prefere sugeri-lo.
Nesse contexto, a palavra ganha força. Versículos do Alcorão passam a ser inscritos nas paredes, em cúpulas, em objetos do cotidiano e a escrita deixa de ser apenas comunicação para se tornar forma visual. A caligrafia não diz apenas. Ela desenha o sagrado.
Em outras tradições, a escrita cumpre sobretudo a função de comunicar. Ali, porém, ultrapassa o significado literal. Os versículos inscritos já foram lidos no livro. Na arquitetura, ganham outra dimensão. As letras se alongam, se curvam, ocupam o espaço. Criam ritmo, movimento, continuidade. Não são apenas palavras. São formas que conduzem o olhar e instauram presença.
Mesmo quem não lê árabe percebe algo. Porque o que se impõe não é apenas o conteúdo, mas o gesto visual da escrita. A palavra deixa de ser apenas lida. Passa a ser vista. E, de algum modo difícil de nomear, sentida.

Mesquita Azul, Istambul
Técnica, quando o detalhe se torna linguagem
Se a figura recua, o detalhe avança. Formas geométricas, arabescos e entrelaçamentos contínuos revelam uma ordem precisa. Nada ali é casual. Há cálculo rigoroso, repetição controlada sustentando a forma. Essa disciplina, porém, não se impõe. Dissolve-se no próprio olhar.
O efeito não é frio. Ao contrário, quanto mais percorre, mais perde a noção de limite. Não há ponto final. Esse uso da geometria não busca decorar. Busca criar uma experiência. O olhar não captura. Apenas circula, perdido na ausência de fronteiras.

Geometria islâmica, Andaluzia
História, um percurso que se expande
Desde o século VII, com o surgimento do Islã, essa linguagem visual começa a se consolidar. A Mesquita de Damasco já apresenta mosaicos que evitam figuras humanas e privilegiam formas e paisagens estilizadas. Com o tempo, centros como Bagdá se tornam polos culturais, onde manuscritos, cerâmicas e tecidos refinam ainda mais esse vocabulário visual.
Nos séculos seguintes, diferentes impérios ampliam essa tradição. Na Pérsia, surgem tapetes e miniaturas de enorme sofisticação. No mundo otomano, a arquitetura alcança monumentalidade, como na Mesquita de Süleymaniye. E, na Península Ibérica, a Alhambra sintetiza essa estética com uma delicadeza quase hipnótica.
Geografia, quando a cultura atravessa territórios
A arte islâmica não pertence a um único lugar. Ela se estende do Oriente Médio ao norte da África, da Espanha à Índia. E, em cada região, dialoga com culturas locais sem perder seu núcleo. Esse trânsito ajuda a explicar sua riqueza.
No Taj Mahal, por exemplo, elementos islâmicos se encontram com tradições indianas, criando uma síntese única, ao mesmo tempo rigorosa e sensível. Não é repetição. É adaptação. Isto não é estilo decorativo. É uma forma de pensar o mundo que atravessa territórios.

Taj Mahal, Índia
O detalhe que dissolve
Talvez o que una todas essas manifestações não seja a forma, mas o efeito. A repetição dos padrões, a precisão dos traços, o entrelaçamento contínuo, tudo isso cria uma experiência singular: o olhar não encontra repouso. E, ao não encontrar repouso, algo acontece.
O detalhe deixa de ser detalhe. Não chama a atenção para si. Não conduz a uma conclusão. Não encerra. Dissolve. Em um universo onde a figura se retrai, o detalhe avança. Não como excesso, mas como caminho. O que não pode ser representado diretamente se sugere. O que não se fixa, se repete. E, nesse movimento, o olhar deixa de dominar. Passa a acompanhar.
Hoje, ver menos, sentir menos
Vivemos cercados por imagens que pedem resposta imediata. Tudo se oferece ao olhar para ser compreendido rapidamente. E descartado na mesma velocidade. Ali, ao contrário, somos convidados a permanecer. Não a entender. Mas a sustentar. Porque há imagens que não se explicam. Não se entregam. E, ainda assim, ou talvez por isso, nos alcançam.
Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio jabuti) e “O enigma de Sofia”.[email protected]

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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