“Da menina mais bonita, quero um beijo e um abraço.”

por Marlene Polito
Publicado em 24/02/2026, às 08h29
Pouco? Talvez.
Mas talvez seja justamente essa medida, nem tudo, nem demais, que uma antiga cantiga infantil nos ensine sobre desejo, escolha e delicadeza.
No parquinho da escola infantil, risos, gritos e corre-corre se misturam às vozes das crianças que cantam Terezinha de Jesus. A cantiga surge no meio da brincadeira, quase sem ser notada, como se pertencesse ao ar daquele espaço.
Cantos de roda atravessam gerações assim: inscritos na memória, repetidos sem esforço, transmitidos sem explicação. Sob a aparência simples, guardam pequenas narrativas carregadas de valores, escolhas e modos de relação.
Terezinha de Jesus é uma delas: uma história que começa com uma queda e termina com um beijo e um abraço. Entre uma coisa e outra, cabe quase tudo o que chamamos de civilização.
Basta ouvir com calma os versos que as crianças repetem quase sem perceber, herdados de outras vozes, de outros tempos:
Terezinha de Jesus
de uma queda foi ao chão.
Acudiram três cavaleiros,
todos três de chapéu na mão.
O primeiro foi seu pai,
o segundo, seu irmão.
O terceiro foi aquele
que a Tereza deu a mão.
A figura dos três cavaleiros, chapéu na mão, não é casual. Ela remete a um imaginário que atravessou séculos antes de chegar às rodas infantis, ligado às tradições ibéricas, às narrativas orais e ao universo simbólico da cavalaria. Dialoga também com o amor cortês, em que aproximar-se supunha contenção e reconhecimento.
Retirar o chapéu não é mero sinal de educação; é um gesto de medida. Diante da fragilidade, o corpo se recolhe, o impulso se suspende, e a ação cede lugar ao respeito.
Não há disputa nem espetáculo. Pai e irmão cumprem a proteção imediata. O terceiro permanece em espera. Nada exige, nada promete. Apenas aguarda.
A escolha, então, não se dá por palavras nem promessas, mas por um gesto mínimo: a mão que Terezinha estende.
A cantiga, contudo, não se encerra na cena cerimonial dos cavaleiros. Em seus versos finais, ela desce à vida concreta: da laranja, quer-se um gomo; do limão, um pedaço; da menina mais bonita, um beijo e um abraço. Já não há solenidade nem hierarquia. O que surge é o desejo na medida justa: não a posse inteira, mas a parte consentida, o afeto possível.
E é justamente depois dessa descida ao concreto que a queda ganha seu verdadeiro sentido.
A queda de Terezinha não é apenas um acidente narrativo. É ruptura. Até ali, há movimento e distração; ao cair, o corpo interrompe o fluxo, toca o chão e se torna visível em sua vulnerabilidade.
Em muitas narrativas simbólicas, cair é perder a posição segura, abandonar a verticalidade, reconhecer um limite. A queda não humilha; humaniza. Ela suspende a sensação de controle e desfaz a ilusão de autossuficiência. Não escolhemos apesar da queda. Escolhemos a partir dela.
É no limite, e não na segurança, que a escolha revela seu verdadeiro peso. É porque Terezinha cai que os cavaleiros se aproximam. É porque há fragilidade que o gesto ganha sentido.
É nesse intervalo, entre o chão e o gesto, que algo decisivo acontece. A fragilidade convoca o cuidado, mas não elimina a autonomia. Ninguém decide por Terezinha. A vulnerabilidade não suprime sua escolha; ao contrário, torna-a mais significativa.
Talvez por isso a cantiga nos cause estranhamento. Vivemos na cultura da resposta imediata, do impulso que se antecipa ao outro, da afirmação que dispensa escuta. A roda infantil, sem alarde, preserva outra lógica.
Talvez tenhamos desaprendido a esperar.
Ao longo da história da arte, poucos movimentos foram tão decisivos quanto o da mão que se estende. Não é um gesto ruidoso. Ainda assim, concentra pactos, escolhas e passagens.
Na escultura Psyche Revived by Cupid's Kiss, de Antonio Canova, o instante decisivo não está no beijo iminente, mas no toque suspenso das mãos que se procuram. Antes do abraço, há o gesto que restitui o vínculo, que traz a vida de volta.
Em Summer Evening, de Edward Hopper, o gesto sequer se realiza. Duas figuras permanecem próximas na varanda, envoltas pela luz do entardecer. As mãos não se tocam. A aproximação é possível, mas contida. Hopper detém-se nesse intervalo, o momento em que tudo pode acontecer ou permanecer em suspenso.
E no cinema mudo, pense-se em City Lights, de Charlie Chaplin, quando a palavra ainda sustentava o drama, era o gesto que narrava. Um simples toque de mãos, na cena final, bastava para alterar destinos e condensar o indizível.
A escultura mostra o toque.
O cinema mostra o reconhecimento.
Hopper mostra a espera.
E a cantiga mostra a escolha.
Talvez por isso essas cantigas sobrevivam. Não ensinam moral. Mostram. Entre uma queda e um abraço, aprendemos - ou reaprendemos - que civilização também é isso: saber esperar, saber medir, saber oferecer a mão antes de qualquer palavra.
É uma coragem rara.
E é ali, nesse gesto mínimo, que algo recomeça.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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