Tradição, fé e cinema marcam os desfiles das três escolas no Grupo Especial de São Paulo

Letícia Sales Publicado em 12/02/2026, às 20h27
Mocidade Alegre
Fundada oficialmente em 24 de setembro de 1967, a Mocidade Alegre carrega uma trajetória que começou quase 20 anos antes, nas ruas da capital paulista. Nascida da irreverência de blocos formados no fim da década de 1940 por Juarez da Cruz e amigos vindos de Campos (RJ), a agremiação transformou-se em uma das mais respeitadas do Carnaval de São Paulo.

Ao longo dos anos 1950 e 1960, o grupo ganhou notoriedade com fantasias criativas e nomes provocativos, até adotar definitivamente o nome Mocidade Alegre, em 1963. A oficialização como escola de samba ocorreu em 1967, quando foi criado o Grêmio Recreativo Mocidade Alegre, tendo Juarez como primeiro presidente. As cores vermelho e verde tornaram-se marca registrada da agremiação, que consolidou tradição em quesitos como mestre-sala e porta-bandeira e construiu forte identidade comunitária.
Após desfilar com o enredo “Índios do Brasil”, em 1968, e conquistar o primeiro lugar do grupo de acesso no ano seguinte, com “Na Corte de Nero”, a escola firmou-se entre as protagonistas do Carnaval paulistano. Seis décadas depois, mantém o prestígio e a força competitiva.
Para 2026, a Mocidade levará ao Sambódromo do Anhembi uma homenagem à atriz Léa Garcia. O enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra” propõe celebrar o legado da artista e destacar temas como ancestralidade, força feminina, resistência e protagonismo negro.
O desfile revisitará personagens marcantes da carreira da atriz no teatro, no cinema e na televisão, com referências a obras como Orfeu Negro, Quilombo e à novela Escrava Isaura. A proposta é evidenciar o pioneirismo de Léa, que conquistou reconhecimento nacional e internacional em um período de poucas oportunidades para artistas negros.
O samba-enredo também incorpora elementos das religiões de matriz africana e da cultura afro-brasileira, evocando termos que remetem à espiritualidade e às tradições ancestrais. A narrativa estabelece um paralelo entre a trajetória da atriz e a própria história da escola, marcada pela valorização da cultura negra e pela busca por representatividade.
A Mocidade Alegre será a terceira a desfilar no sábado (14), na segunda noite do Grupo Especial. Em 2025, a escola terminou a competição na quarta colocação e agora aposta na força simbólica do enredo para retomar a disputa pelo título.
Camisa Verde e Branco

Fundada em 1914, no bairro do Bixiga, a Camisa Verde e Branco é uma das agremiações mais antigas e tradicionais do carnaval paulistano. Ao longo de mais de cem anos, a escola construiu uma trajetória marcada por títulos, forte identidade comunitária e ligação direta com a cultura popular da capital.
Reconhecida por enredos que dialogam com a história do Brasil, a identidade paulistana e questões sociais, o Camisa consolidou-se como uma escola que alia espetáculo e reflexão na avenida. Suas apresentações costumam reunir alegorias de impacto visual, fantasias detalhadas e evolução organizada, características que ajudaram a firmar seu nome entre as protagonistas do Carnaval de São Paulo. A bateria “Ritmo Puro” é um dos símbolos dessa tradição, conhecida pela cadência firme e pela conexão com o público. Fora da avenida, a escola mantém projetos sociais e culturais no bairro, reforçando o papel comunitário.
Em 2026, o Trevo levará ao Sambódromo do Anhembi o enredo “Abre Caminhos”, homenagem a Exu, orixá associado à comunicação, ao movimento e à transformação. Última escola a desfilar no sábado (14), na noite final do Grupo Especial, a agremiação tenta encerrar um jejum de 33 anos sem títulos.
O desfile propõe celebrar as diferentes manifestações de Exu, guardião das encruzilhadas, além de reverenciar a formação de seus cultos e a consolidação das religiões de matriz africana no Brasil. A narrativa combina religiosidade, identidade de rua e resistência cultural, em uma mensagem de enfrentamento ao preconceito histórico contra essas tradições.
Assinado por compositores como Silas Augusto e Cláudio Russo, o samba-enredo aposta em linguagem direta e de forte apelo popular. Versos que evocam o chamado “Exu catiço” reafirmam a herança espiritual da escola, enquanto referências às Pombagiras destacam o protagonismo feminino e a liberdade como elementos centrais da proposta.
Nos ensaios técnicos, a obra demonstrou força de comunicação com o público. Sob o comando do intérprete Charles Silva, o carro de som ganhou reforço de uma ala musical feminina, garantindo potência e equilíbrio vocal. A tradicional “Bateria Furiosa” sustentou a cadência característica da escola, com bossas e variações que marcaram momentos estratégicos do samba.
Após terminar o Carnaval de 2025 na quinta colocação, o Camisa Verde e Branco aposta na força simbólica do enredo e na identidade construída ao longo de sua história para transformar fé e emoção em pontos na disputa pelo título.
Vai-Vai

Fundado oficialmente em 1º de janeiro de 1930, o Vai-Vai construiu uma trajetória que se confunde com a própria história do carnaval paulistano. Nascido no bairro do Bixiga, na região da Saracura, o grupo surgiu das rodas de choro, batuque e capoeira que animavam as festas populares do início do século 20. Ao longo das décadas, transformou-se na maior campeã da cidade, acumulando nove títulos como cordão, 15 conquistas no Grupo Especial, dez vice-campeonatos e dois títulos do Grupo de Acesso.
A escola acompanhou a evolução do carnaval, deixando para trás o formato de cordão e assumindo, em 1972, o nome de Grêmio Recreativo Cultural e Social Escola de Samba Vai-Vai. Incorporou comissão de frente, ala das baianas, alegorias mais elaboradas e consolidou símbolos como o “Criolé”, personagem que representa a identidade negra e popular da comunidade da Bela Vista. Reconhecido como patrimônio cultural da cidade, o Vai-Vai mantém laços históricos com o Bixiga, embora atualmente realize seus ensaios na quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo, após a desapropriação de sua antiga sede.
Para o Carnaval de 2026, a escola leva ao Sambódromo do Anhembi o enredo “A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia”. A proposta homenageia a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, a cidade de São Bernardo do Campo e os trabalhadores que impulsionaram o desenvolvimento cultural e industrial do ABC Paulista.
Sexta agremiação a desfilar na sexta-feira (13), na primeira noite do Grupo Especial, o Vai-Vai busca recuperação após encerrar o Carnaval de 2025 na nona colocação. O novo projeto aposta na força simbólica do cinema brasileiro e na identidade popular da escola para retomar protagonismo.
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