Destaque Principal Geral

Missas de 7º dia on-line viram rotina para padre de Manaus: “melhor que nada”

Redação
Escrito por Redação

Luis Miguel Modino chegou a se oferecer para prestar ritos funerários virtuais, mas familiares se mostram muito abalados para aceitar

Assim que foi declarado o reconhecimento da transmissão comunitária do novo coronavírus no Brasil, no dia 20 de março, o padre espanhol Luis Miguel Modino , residente de Manaus, passou a orar missas pelo Facebook. Poucos dias depois, com o rápido avanço da Covid-19 no Amazonas , o sacerdote se viu rezando, rotineiramente, missas de sétimo dia on-line, em ação que ele considera mínima diante das circunstâncias, mas necessária para tentar confortar as pessoas.

“Não é uma coisa que a gente gostaria de fazer sempre, mas, diante da realidade, eu penso que é melhor fazer isso do que não fazer nada. Acho que a gente tem que procurar alternativas para poder se fazer presente nas vidas das pessoas”, afirmou o padre.

Integrante da Rede Eclesial Pan-Amazônia, o padre  vive no Brasil desde 2006, quando chegou ao país para trabalhar no interior da Bahia, em jornada que durou quase uma década. Hoje, aos 46 anos, ele carrega a bagagem de ter presenciado diferentes dramas no auxílio a populações vulneráveis, mas nada comparado aos efeitos causados pela pandemia de Covid-19 no Amazonas . Com o sistema de saúde em colpaso desde o dia 10 de abril, o estado já tem mais de 10 mil casos confirmados e mais de 800 mortes.

“A situação que as famílias estão vivendo diante da morte, de não poder se despedir, é uma coisa que vai marcar muito a vida das pessoas durante muito tempo, porque a morte já é uma coisa dolorida. Mas imagina quando essa morte acontece sem a família poder ficar perto, e inclusive, sem a família poder participar do sepultamento ”, completa.

Funerais

Foi pensando nessa dor causada pela ausência de uma despedida apropriada que Luís Miguel Modino chegou a oferecer a realização de ritos funerários on-line a alguns familiares de vítimas de Manaus , mas o abalo psicológico dessas pessoas era tanto que elas não viram sentido em realizar a cerimônia em moldes tão incomuns.

“A gente oferece a possibilidade, mas não pode obrigar ninguém. A minha ideia é tentar mostrar que é possível dar esse pulo do mundo real para o mundo virtual nessas circunstâncias especiais”, explica Modino, que chegou a realizar um único funeral pela internet , para uma família espanhola da qual é amigo há décadas, o que facilitou a aceitação.

Sem condições de uma reflexão mais profunda sobre o que está acontecendo, famílias vivem o processo de perda e luto de maneira muito rápida. As imagens das valas comuns cavadas em Manaus para enterrar vítimas da Covid-19 ilustram esse drama, não à toa ganharam repercussão internacional. Após o colapso no sistema de saúde , o Amazonas corre o risco de viver um colapso funerário .

Diante dessa falta de amparo, a Arquidiocese de Manaus conseguiu uma autorização para confortar as famílias no feriado do 1º de maio. O arcebispo Dom Leonardo Steiner esteve no Cemitério Nossa Senhora Aparecida para benzer os caixões e fazer orações rápidas com as famílias que tivessem interesse. Tudo ocorreu em um sistema drive-thru, sem que os caixões fossem retirados dos carros fúnebres.

Populações vulneráveis

Seis dias antes, Dom Leonardo Steiner recebeu uma ligação do Papa Francisco , que manifestou sua preocupação com “sua preocupação com os povos indígenas, os ribeirinhos e os pobres”, além de ter afirmado que “reza por todos nós e que enviava uma bênção especial para a Amazônia”.

“O arcebispo agradeceu as palavras de conforto e consolo, apresentando ao Papa o que a Arquidiocese tem feito no cuidado dos irmãos e irmãs que vivem nas nossas ruas, na distribuição de cestas básicas, na atenção às pessoas que sofrem, no atendimento aos migrantes”, informou a Arquidiocese na ocasião.

De acordo com Luís Miguel Modino, existe uma mobilização dentro da Igreja para ajudar essas populações mais vulneráveis citadas pelo papa.  Pessoas que precisam de ajuda estão sendo encaminhadas para a sede da Cáritas,  organização internacional humanitária ligada à Igreja Católica, onde fornecem kits de limpeza e alimentação. Muitas dessas pessoas desafiam as determinações de isolamento social para buscar ajuda, principalmente nas paróquias.

“É verdade que cada vez saão mais as pessoas que vão às paróquias em busca de ajuda, porque a situação em Manaus é cada vez mais complicada. Sobretudo com alimentação. A Cáritas está tendendo principalmente quatro grupos, os indígenas, os migrantes, os moradores de rua e os catadores. Esses são so quatro grupos mais vulneráveis aqui em Manaus. Aqui tem muito migrante venezuelano, que estava passando muito apertado antes da pandemia, imagina agora”, alerta Modino.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IG

Sobre o autor

Redação

Redação

%d blogueiros gostam disto: