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Marcus Vinícius de Freitas – Estados Unidos: Uma Casa Dividida

Redação
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Estados Unidos: Uma Casa Dividida

O primeiro debate eleitoral entre Donald Trump e Joe Biden foi pitoresco. Há quem considere este o pior debate da história política americana e que revela o grau de separação política que existe atualmente, além da incapacidade de conciliar visões diferentes sobre o futuro dos Estados Unidos. 

Equivoca-se quem afirma que houve ganhadores no debate. Cada um tinha uma estratégia diferente. Biden pretendia mostrar que está bem fisicamente para assumir a presidência. E Trump pretendia animar a sua tropa de eleitores a seguirem firmes para o reelegerem. Com uma base de uns 40% do eleitorado, os eleitores republicanos são mais comprometidos em votar presencialmente. Trump precisa manter essa base fiel – cujo apoio é de mais de 90% para um comparecimento maciço no dia das eleições. E depois de 4 anos quase de Governo Trump, engana-se quem acredite que ainda haja indecisos.

Assim, esta é uma eleição de base. A estratégia de Trump era muito clara: forçar Joe Biden a alienar uma parte de sua base democrata com algum comentário que revelasse uma inclinação preferencial. Biden também tem um partido dividido, com alas mais radicais (e ativas) e maisao centro do espectro. Foi por essa razão que Trump, num momento, questionou Biden quanto a um eventual aumento no número de juízes na Suprema Corte, que ele optou por não responder porque poderia ser entendido negativamente pelos centristas do seu partido. E, no tocante à base mais radical, Trump questionou Biden sobre o Manifesto de Bernie Sanders, o único socialista no Senado dos Estados Unidos, que Biden também não respondeu porque a negativa afastaria a ala mais radical do partido. Para Trump era importante desestabilizar Biden. E até conseguiu.

No entanto, muitos questionarão sobre a estratégia do atual presidente. Ocorre que Trump defendia o seu mandato como um gladiador, enquanto Biden, mais calmo, adotou a postura de franco-atirador, inclusive chamando Trump de palhaço, tagarela e ordenando-lhe que se calasse. Não foi o melhor momento da democracia dos Estados Unidos, mas evidencia que a Casa está dividida. E uma casa divida não resiste em pé, como bem reconheceu Abraham Lincoln. Os Estados Unidos tem sido a democracia representativa mais antiga e com menor instabilidade institucional. Trata-se de um grande feito daquele país que conseguiu, com um enorme apego à Constituição e aos principios fundamentais estabelecidos pelos seus Pais Fundadores, manter-se estável e em constante evolução.

Por um mecanismo estabelecido pelos Pais Fundadores, a eleição nos Estados Unidos é um misto de voto popular e voto seletivo, que é o voto do Colégio Eleitoral, constituindo-se este o mais importante. Para cada Estado da União corresponde um determinado número de delegados a uma Convenção Nacional que selecionará, como Colégio Eleitoral, o futuro presidente. A ideia é a de que não haja uma prevalência dos estados mais populosos na decisão final sobre a presidência, criando-se um mecanismo de freios e contrapesos no processo. Assim é possível um candidato ter mais votos populares e ainda sim não ser eleito por não ter tido os votos necessários para a eleição no Colégio Eleitoral. O número mágico é 270. Quando o candidato atinge esse número em delegados, ele estará eleito presidente.

Alguns estados tendem a sempre votar do mesmo modo. Outros, chamados de “Swing States”, oscilam em seus resultados, mudando, conforme o momento eleitoral. Por essa razão, Estados que oscilam, como Flórida e Ohio, por exemplo,  tornam-se fundamentais na decisão final. É por esta razão que se deve prestar maior atenção aos números estaduais que nacionais.

Trump levantou a questão dos votos por correio, por dois motivos: pode incentivar os democratas dos estados que oscilam a votarem, sem o compromisso de comparecer às urnas, o que lhe prejudicaria; e a impossibilidade de verificação da identidade real dos eleitores, o que possibilita ocorrer um incontrolável número de fraudes. Tudo isto pode levar os norte-americanos a terem a eleição em 3 de novembro, mas somente conhecerem o vencedor meses depois. E, obviamente, depois de uma enorme disputa judicial, que pode, uma vez mais, terminar na Suprema Corte. Isto é um ponto extremamente negativo para aquela que pretende ser o modelo global de democracia.

Resta, então, saber se a combatividade de Trump contra o voto por correio não estimulará, de fato, os democratas a comparecerem massivamente às urnas. A famosa “supresa de outubro”, que foi o fato de o COVID-19 ter, finalmente, acometido Trump e sua esposa, poderá favorecê-lo eleitoralmente. A realidade é que se, de fato, ocorrer o mesmo que passou com Boris Johnson depois de ter o Covid-19, que teve um aumento de popularidade, a enfermidade poderá trazer pontos positivos para Trump, além de alguma solidariedade. Já está claro que ele pretende usar a doença eleitoralmente. Falta pouco para sabermos quais estratégias darão certo.

Marcus Vinícius De Freitas

Professor Visitante

Universidade de Relações Exteriores da China

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