Siga nossa Redes

Artigos

Marcus Vinicius de Freitas: A Pandemia do Medo

Redação

Publicado

em

Marcus Vinicius de Freitas: A Pandemia do Medo

A Pandemia do Medo

O filósofo romano, Marco Túlio Cícero, afirmou certa feita: “Vivam como homens valentes; e se a sorte for adversa, enfrentem seus golpes com corações valentes”.  Vivemos dias complicados. Quem imaginaria que o encontro desta geração seria com um vírus que a colocaria de joelhos, perdida e desesperançada. Como será que as futuras gerações olharão para o momento atual, analisarão e se sentirão a respeito? Vergonha ou empatia?

Se a geração que passou pelas duas Grandes Guerras, reconstruiu os países e levou a humanidade à Lua ficou conhecida como a Melhor Geração, sem dúvida, a atual poderá ser conhecida como Geração do Medo: uma humanidade fraca, depressiva, inerte e até mimada. O coronavirus, em poucos meses, travou o mundo, distanciou as pessoas e deu vazão a algumas das piores manifestações humanas: polarização política extremada, falta de solidariedade, depressão, ansiedade, corrupção crescente, além de muitas e infundadas teorias conspiratórias. Observamos em todas as partes a enorme falta de inteligência emocial para lidar os desafios enfrentados por parte das lideranças políticas, empresariais e religiosas. Poucos – mas muito importantes – foram os atos de compaixão. Os poucos corações valentes, segundo Cícero.

A humanidade, particularmente no Ocidente, encontrou o seu pior inimigo: o egocentrismo. Nunca houve tantos pedidos de divórcio e casos de abuso físico e sexual na história recente. A jornada coletiva da humanidade, iniciada há milhares de anos, sempre foi marcada por esse conflito entre a preservação pessoal e a preocupação coletiva. De Caim, que matou Abel, dizendo que não era o guardador de seu irmão, até às brigas políticas atuais,descobrimos o quão pouco evoluímos. Exacerbamos o “eu” e o “meu”. Esquecemos do “nós” e do “nosso”. De fato, coletivamente, ignoramos que todos somos condôminos num planeta que não nos pertence, onde nada, de fato, é nosso, e que, na realidade, somos apenas passageiros, sem origem, sem trajetórias preestabelecidas e sem destino.  Somos todos mestiços numa jornada em que não sabemos nem origem, nem o destino. E por mais que queiramos nos diferenciar, somos todos iguais.

A natureza, nesse período, ensinou muitas coisas a respeito da situação atual. Ela se depurou e renovou um pouco mais. Se prestarmos atenção aos galhos das árvores secas em razão do outono e inverno, veremosinúmeros ninhos de pássaros, na parte mais elevada das árvores, onde os país afastam os possíveis destruidores e conseguem melhor proteger suas famílias. Ao assim fazerem, responsáveis pela criação dos filhotes na etapa inicial de suas vidas, os pássaros isolam suas famílias temporariamente dos grandes desafios.

 A pandemia ofereceu a todos este período de retorno ao ninho para reflexão. Por existirem muitas vozes conturbadas no mundo, ficamos reféns do politicamente correto e da vontade da maioria. O lar, último reduto da proteção social, hoje tem um papel secundário na vida de muitos indivíduos. Os valores se perderam. As vozes que poderiam manifestar-se contrariamente não têm uma proposta efetiva para modificar o rumo da estrada. Fomos dominados por uma dinânimca negativa que somente nos levará à miséria e destruição. E não precisa ser assim. Cabe a cada um vencer a inação e desviar-sedo abismo.

No dia 30 de janeiro de 1948, às 17h17, o mundo perdeu tragicamente uma de suas maiores inspirações: Mohandas Karamchand Gandhi  mais conhecido como Mahatma Gandhi – um dos maiores líderes da história moderna que, com seu jeito humilde, tem inspirado muitos a se transformarem em agentes de mudança. 

Gandhi, com sua sabedoria inestimável, listou aqueles que ele chamou de Sete Pecados Mortais: “Riqueza sem Trabalho, Prazer Sem Consciência, Conhecimento sem Caráter, Comércio sem Moralidade, Ciência sem Humanidade, Religião sem Sacrifício e Política sem Princípios.”

Gandhi continua correto após tantos anos. A abstinência desses valores é, sem dúvida, a maior causa desta pandemia do medo. Perdemos a capacidade de sonhar com dias melhores e de sermos melhores. Retomar estes princípios é, portanto, essencial para reescrevermos o futuro da história da humanidade. Sob pena de repetirmos os erros da atual pandemia.

Não podemos deixar que atual geração seja condenada a ser conhecida mais por seu medo do que seu mérito de virar a página e seguir adiante, ainda melhor. É preciso sair do labirinto. Acreditar que os nossos melhores dias ainda estão por vir e transformarmo-nos em corações valentes!

Marcus Vinicius de Freitas:
Professor de Direito e Relações Internacionais, na Universidade de Relações Exteriores da China

Twitter/Instagram: @mvfreitasbr

Publicidade

mais lidas