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Marcus Vinícius de Freitas – Diplomacia: uma estrada de mão dupla

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Marcus Vinícius de Freitas - Diplomacia: uma estrada de mão dupla

Diplomacia: uma estrada de mão dupla

Marcus Vinicius de Freitas 

O episódio recente do distanciamento diplomático entre o Brasil e a China refletido na questão das vacinas da COVID-19 representa um dos equívocos de nossa Política Externa nos últimos dois anos do governo atual. Palavras e posicionamentos importam, e a estrada, nas relações internacionais, tem duas vias.

Uma das funções da diplomacia é minimizar conflitos e diferenças, ao invés de enfatizá-los. É fato de que existem distinções entre o Brasil e a China, em áreas como ideologia, sistema político, economia, dentre outros. No entanto, erroneamente, alguns parecem acreditar que a China vem realizando uma agressão aos valores ocidentais por meio da propagação do socialismo. Estes conspiracionistas de plantão pretendem fazer crer que a China tem envidado enormes esforços globais para controlar a informação e o meios de comunicação, a fim de consolidar seu poder. Isso não é verdade.

A China tem-se caracterizado por aderir ao principio da não ingerência nos assuntos domésticos de outros paísese vem incrementando, nos últimos anos, a sua voz no cenário global pelos sucessos obtidos. Ademais, o país asiático defende uma perspectiva ganha-ganha e de maior cooperação global. Entretanto, diante da ascensão chinesa após o colapso do império soviético, os Estados Unidos, em seu processo de declínio como potência hegêmonica, têm-se empenhado numa batalha econômica, ideológica e propagandística contra a China.

Deste conflito que – esperamos – não atinja proporções devastadoras, surgem, também, oportunidades, para que países se tornem mediadores ativos nas controvérsias entre a China e os Estados Unidos. E o Brasil poderia desempenhar tal função. No entanto, para assumi-la, é importante prestar maior atenção ao senso de cooperação e inovação que este século asiático poderá proporcionar.

Há muito venho afirmando nesta coluna que o Brasil precisa tratar a China não como cliente mas como parceira. Em 2020, o Comércio Brasil-China rompeu em 2020 pela primeira vez na história a barreira de US$ 100 bilhões. Parece-me o suficiente para adotarmos um olhar estratégico sobre o relacionamento bilateral. As possibilidades são infinitamente maiores, principalmente se atuarmos, em conjunto, no compartilhamento de ciência e tecnologia. Neste sentido, a Coronavac constitui um bom início. É importante que o Brasil permaneça de portas abertas e não feche oportunidades ou bloqueie empresas, como a Huawei, se for melhor para o desenvolvimento e crescimento econômico do Brasil.

Os atritos entre China e Estados Unidos não são um conflito de civilizações, nem devem ser de soma zero (“eu ganho, você perde!”). Com mais de 5 mil anos de história, a civilização chinesa aprendeu a ter paciência e uma perspectiva de longo prazo como atributos essenciais para buscar soluções de meio-termo. Instigar or acorrentar-se a uma perspectiva de soma zero, significa permanecer cúmplice de conflitos que com maior maturidade, facilmente, seriam descartados. O Brasil não ganha nada com isso.

É importante que o País esteja à frente como interlocutor para criação de oportunidades e plataformas de diálogo, respeitando condições nacionais diferentes, com opções distintas quanto ao seu desenvolvimento, de acordo com seus próprios desejos. O neoliberalismo defendido pelos países ocidentais, dominado pelos Estados Unidos, não é universalmente aplicável a todos os países, nem superior a outros sistemas adotados que possam ser, ou vir a ser, adotados em outras partes do mundo. Administrar diferenças, negociar em pé de igualdade e buscar um terreno comum exigem um caminho de convivência caracterizado por harmonia, mas não pela mesmice. Este deveria ser o novo normal das relações diplomáticas do Brasil com o mundo. Já temos mais de 100 bilhões de razões para mudarmos de comportamento.

Marcus Vinícius de FreitasAdvogado e Professor, Universidade de Relações Exteriores da China

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