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Marcus Vinicius de Freitas: Trump e a eterna lei do retorno

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Marcus Vinicius de Freitas: Trump e a eterna lei do retorno

Trump e a eterna lei do retorno

Marcus Vinícius de Freitas

Tornou-se um dos fatos mais marcantes deste início de 2021 a tomada do Capitólio dos Estados Unidos por um grupo de baderneiros, que, sob a afirmação de estarem defendendo a pristinidade do sistema eleitoral norte-americano, de fato, colocaram em cheque aquele que é considerado, por muitos, um modelo de desenvolvimento político-institucional democrático.

Alguns têm afirmado que a reação dessa turba foi incitada por Donald Trump e sua retórica, que tem questionado, já há muito tempo, as instituições existentes naquele país, sob a alegação de que, se viesse a perder as eleições, isto somente ocorreria devido à fraude. Trump – é fato – exortou seus seguidores durante a manifestação – uma massa popular de milhares de pessoas – a terem uma postura pacífica. Em nenhum momento, de fato,estimulou a invasão. No entanto, a temática da votaçãopara certificação do Presidente-eleito, Joe Biden, naquele dia fatídico, era propícia a que alguns encontrassem o momento perfeito para atuarem. Com isso, aqueles meliantes conseguiram impingir em Trump – o presidente por eles admirado – uma das piores marcas em seu final de mandato. Trump jamais serácriminalmente culpado pelos atos. Mas, politicamente, carregará o ônus daquela cena típica de uma República de Bananas.

Em que pese as várias críticas a Donald Trump, muitas delas válidas, a realidade é que, no balanço, a situação dos Estados Unidos – um país que vem em declínio desde os dias de Bill Clinton – conseguiu melhorarrelativamente. A economia viveu três anos muito prósperos, o país não se envolveu em guerras, houvepoucas intervenções e, ainda assim, Trump conseguiu enfrentar muitos dos problemas impostos por uma agenda global complicada, com a ascensão de novos atores. Trump, desde o primeiro dia de mandato, foi hostilizado pela mídia e pelo establishment norte-americano e global. No entanto, logrou aumentar a base de eleitores e ainda teve mais votos que Barack Obama.

No entanto, no meio do seu caminho havia um vírus, queo derrubou. E quando o derrubou, tirou-lhe a racionalidade. E como sempre se observa em movimentações políticas, quando se nota que o “rei está perto de seu fim, as alianças mudam e a lealdade passa a ter um custo. O abandono ao barco é geral e as críticas se tornam incessantes. Aliados do passado se transformam em vozes condenatórias do presente. A lealdade, na política, somente existe quando há a possibilidade de ganhos. Gratidão é a expectativa de favores no futuro.

Trump deveria ter-se dado conta de que seus inimigos não querem somente espezinhá-lo. De fato, as tentativasestapafúrdias de uso da 25ª Emenda e de um segundoimpeachment fazem parte da lista de alternativas que pretendem usar para arruinar Trump, seu legado e destino político e empresarial. Para ampliar isso, as mídias sociais, por ele tão exploradas, transformaram-se em controladores da liberdade de expressão. Todos, enfim, estão-se dando conta de que a verdade agora, mais do que nunca, tem dono, sujeita ao controle de grandes conglomerados de comunicação, que, raramente, tendem a ouvir ou dar espaço a vozes discordantes daquela que é a sua agenda. Pretendem, assim, acabar com o mercado de ideias, no qual selecionamos aquilo que queremos ou não, por livre escolha.

Trump sofre, agora, com a reconhecida lei do retorno, resumida popularmente na frase “Tudo que vai, um dia volta”. Ao polemizar e dividir o país, Trump, que, certamente, teria deixado um legado positivo na sua base conservadora e na própria história dos Estados Unidos, será recordado mais pelo vexame da pandemia e pelo ataque ao Capitólio do que por qualquer outra iniciativa. É o retorno por sua atitude e incapacidade de compreender a mudança dos ventos ou o cansaço da população quanto aos divisionismos. Conseguirá Trump reverter isso? No momento, entendo que não. Mas Trump ainda conta um enorme peso político, um desafio para seus inimigos.

Biden herdará um país dividido. Como reconheceu um grande republicano do passado, Abraham Lincoln, “Uma casa dividida não se sustenta. Pelo rumo inicial de Biden, a divisão perdurará, infelizmente. Os últimos dias de Donald J. Trump na Casa Branca poderiam ter sido mais gloriosos. No entanto, o amargo da invasão no Capitólio o tornará, ainda que temporariamente, o Presidente que foi um mau perdedor.

Marcus Vinícius De FreitasAdvogado e Professor Visitante, Universidade de Relações Exteriores da China

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