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Marcus Vinicius de Freitas

Marcus Vinicius de Freitas: Virando a página na Política Externa

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Marcus Vinicius de Freitas: Virando a página na Política Externa

Virando a página na Política Externa

Marcus Vinicius de Freitas

O Hino Nacional Brasileiro, em sua versão dada por Joaquim Osório DuqueEstrada, ressalta, em seus principais versos, o gigantismo do Brasil, dotado de recursos esplêndidos, com um povo heroico que não foge à luta. Além disso, o hino ressalta o Brasil como o florão da América, uma preciosidade que decora o Continente. Duque-Estrada pretendeu enfatizar que as peculiaridadesdo Brasil lhe dariam um papel distinto devido ao seu colosso e destino histórico no concerto das nações.

O mundo atravessa por um de seus períodos mais complexos. A pandemia do Covid-19 – que ainda teráefeitos por alguns anos – tem vagarosamente, alterado o xadrez global. A liderança, outrora exercida pelos países ocidentais, diluiu-se rapidamente diante da falta de organização, incapacidade de gerenciamento e, até mesmo, da falta de solidariedade. Vimos a pandemia influenciar, decisivamente, o último pleito eleitoral nos Estados Unidos, retirando Donald Trump do poder. Além disso, nos próximos anos, veremos alterações significativas nos quadros eleitorais resultantes da forma como os governos administraram a pandemia.

Ademais, ficou mais evidente um processo paulatino de transição hegemônica, com o declínio dos Estados Unidos e a ascensão da China, um movimento disruptivo de mudança do eixo global do Atlântico para o Pacíficomarcando o início do século asiático. A maneira como os países asiáticos enfrentaram a pandemia ressaltou que distintas formas políticas daquelas apregoadas pelo Ocidente podem coexistir e alcançar resultados positivos. A China tem assumido, cada vez mais, um papel relevante no cenário global em razão da infraestrutura construída e das estratégias perseguidas ao longo das quatro últimas décadas, que a colocaram numa superioridade competitiva em relação do mundo ocidental, inclusive como observado na administração da pandemia.

O Brasil vem sendo considerado, já há muito tempo, um ator de menor relevância global em razão de sua postura e timidez, além da falta de uma contribuição efetiva para a governança global. O pequeno salto de galinha, durante o Governo Lula, foi rapidamente eliminado pelos inúmeros erros de liderança equivocada, ingênua e despreparada, além da corrupção generalizada que caracterizou aquele período.  

Esperava-se que o governo atual realizaria uma mudança de rumo, com uma visão mais pragmatista na Política Externa. No entanto, os erros praticados no passado continuam sendo praticados no presente, só que com o sinal trocado. O Brasil, ao invés de engradecer-se, apequenou-se internacionalmente, ao persistir na tecla ideológica e não na pragmática. O ex-chanceler Ernesto Araújo buscou combater fantasmas ideológicos e, com isso, conseguiu reduzir, ainda mais, o legado histórico da contribuição do país internacionalmente. Para Araújo, a globalização “deu errado” porque colocou no centro do sistema liberal internacional a China. Os ventos sopraram, as mudanças ocorreram e o Brasil persistia numa cruzada de insucesso. Além disso, a imagem do Brasil basicamente derreteu neste governo em face dasmilhares de mortes relacionados à Covid-19 e da maneira como a pandemia tem sido administrada. Tal cenárioconstitui, de fato, um embaraço internacional ao País e a cada brasileiro.  

A troca de Chefia, como o Embaixador Carlos Alberto França, no Itamaraty pode sinalizar um pequeno ajuste na postura global do Brasil. Idealmente, o Ministro de Relações Exteriores deveria ser alguém próximo ao presidente, como uma visão clara dos rumos da globalização e da ordem internacional. Ao escolher alguém da carreira fica mais difícil implementar as inovações tão necessárias ao serviço externo brasileiro.

O maior desafio que o Brasil tem à frente está relacionado àquilo que pretende oferecer como potência global. É fundamental ao País ter uma agenda clara de seus objetivos, interesses e alianças. É preciso saber fazer as escolhas conforme os interesses do País e não baseados na ideologia do dia. Afinal, não há amigos nem inimigos na Política Externa, somente interesses. Resta-nos esperar para ver o que o novo Chanceler pretende apresentar como objetivos efetivos.

Já erramos muito e com elevado custo. É importante entender a mudança dos ventos para elevarmos o Brasil a um novo patamar de relevância global. Quem sabe o novo Chanceler consiga reverter o rumo de um capítulo triste para o Brasil e sua diplomacia. Talvez as palavras de Duque-Estrada ainda consigam inspirá-lo e, quem sabe, ser cumpridas numa geração para orgulho de um povo heroico.

Marcus Vinicius de FreitasAdvogado e Professor Visitante, Universidade de Relações Exteriores da China

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