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Esportes

Luan e a complexidade humana por trás do jogador

Redação SP

Publicado

em

Atuação do corintiano em Araraquara nos faz refletir sobre a infinidade de fatores, da vida ao campo, da formação à tática, que interferem no rendimento do atleta

Durante 45 minutos em Araraquara, Luan se exibiu como o jogador criativo, talentoso e participativo de tempos atrás. A cada lampejo, ressurgem as tentativas de decifrar por que o ex-melhor jogador da América não se manteve no topo. Ou, ao menos, não correspondeu às expectativas postas sobre ele.

Desde sempre, jogadores oscilam por uma razão primordial: são humanos, e nem todos os humanos são fenômenos. É tentador, diante das oscilações, ceder às explicações mais reducionistas, como se apenas uma delas desse conta de justificar variações radicais de performance. A trajetória de Luan é um precioso exemplo de tal complexidade.

Não é possível cravar um diagnóstico, mas é obrigatório observar a quantidade de variáveis envolvidas: dos aspectos humanos aos técnicos e táticos. Considerado introvertido, Luan foi campeão olímpico aos 23 anos e melhor do continente aos 24. Peça fundamental de um Grêmio vencedor, vira seu status se modificar rapidamente. Diante de enredos assim, há os jogadores que se fortalecem, mas há também os que sucumbem à cobrança por justificar, semana após semana, o patamar atingido.

Há os que ganham personalidade e há os que se intimidam. Há os que se deslumbram com as portas que o futebol abre, com o glamour reservado aos jogadores bem-sucedidos, e mudam para pior o comportamento, os cuidados com o corpo. Há até os que, após viverem infâncias marcadas pela privação, consideram-se precocemente saciados com o que conquistaram. Ou, ainda, os que têm pressa para usufruir de tudo o que, subitamente, o futebol lhes permitiu comprar, como numa corrida para recuperar o tempo perdido que vitima a concentração, o chamado foco.

Num continente em que imenso percentual de jogadores crescem em meio a carências, é, mais do que possível, provável que algumas destas questões atravessem suas vidas. Em especial se o jogador em questão perdeu o pai aos cinco anos, conviveu de perto com a violência na região onde morava e, mais recentemente, viu o melhor amigo ser assassinado. O dom de jogar bola não é um poder imune a dramas pessoais. Ainda muito jovens, jogadores têm a maturidade testada em situações extremas. As exceções são os que sabem administrar tantas transformações.

São de ordem pessoais as razões da queda de Luan? Impossível decretar, assim como é equivocado desprezar também as questões eminentemente esportivas que o cercam.

Luan é um jogador de características muito próprias, tem suas especificidades. É o homem habituado a jogar entre a linha de defensores e de volantes do adversário. Por ali, busca a troca de passes curtos, o passe para a finalização, ou tenta ele mesmo a conclusão. É, em suma, um meia-atacante que precisa ter com quem dialogar, pede um time com jogo ofensivo, troca de passes e aproximações. Destacou-se num Grêmio que oferecia justamente isso.

É fato que seu rendimento já caíra antes de chegar ao Corinthians, mas o jogo coletivo do Grêmio também já não era o mesmo quando se transferiu. E o fato é que, por estilo, por cultura de clube, o Corinthians raramente lhe ofereceu o contexto em que se sente mais à vontade.

Sua chegada coincide com a de Tiago Nunes, cujas ideias de jogo pareciam sob medida para Luan. Não por acaso, o treinador via no recém-contratado uma peça importante. Mas mudar uma cultura de jogo tão arraigada e que dera ao clube tantos títulos leva tempo. E o Corinthians não quis esperar.

Desde a saída de Tiago e a mudança no modelo de jogo, quase que num reencontro com a fórmula de anos anteriores, Luan perdeu espaço outra vez. Não significa dizer que ele seja inadaptável a times que tentam contragolpear. Mas tampouco parece adequado esperar dele algo que não pode entregar: Luan não será um jogador de carregar o time ao ataque, puxar contra-ataques em velocidade, brigar sozinho contra uma legião de defensores.

E, por esta razão, o jogo de Araraquara é especialmente didático: enquanto o Corinthians foi um time de construção de jogadas e aproximações no primeiro tempo, Luan jogou bem; quando cedeu campo e passou a viver de contragolpes e bolas mais longas na segunda etapa, Luan se apagou.

Por vezes, é tentador ceder a clichês como a “falta de vontade”, como se a retomada do desempenho fosse tão automática quanto acionar um botão. Possivelmente, Luan tem sua parcela de responsabilidade, os times em que jogou têm outra e, claro, as marcas da vida também têm. O jogo da última terça-feira não explica tudo, mas nos lembra que, embora adormecido, ainda há talento no ex-melhor da América.

 

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Fonte: GE – Globo Esporte.

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