Ivan Sartori

Ivan Sartori – Vertigem ideológica em Hollywood

Redação SP
Escrito por Redação SP

Vertigem ideológica em Hollywood

Um dos fatos mais noticiados da semana, inclusive fora do país, foi a indicação do filme Democracia em Vertigem, da diretora Petra Costa, ao Oscar de melhor “documentário”. A nomeação por parte da academia americana de artes cinematográficas foi ruidosamente comemorada por parte de petistas, adeptos da esquerda em geral e quase a totalidade da mídia especializada. Confesso que o assisti por dever de ofício, já que o trailer, que poderia ser utilizado em qualquer peça de propaganda do Partido dos Trabalhadores, destroçado pelos inúmeros escândalos de corrupção, já funciona como um preview do que as duas horas da produção apresentam em sua totalidade.

O gênero documentário se constitui em uma produção não-ficcional, que se baseia na exploração da realidade e não precisa ser fiel aos acontecimentos. Sem querer enveredar por uma discussão dialética ou filosófica, essa explanação conceitual será útil, com certeza, para balizar as impressões sobre a referida obra desenvolvidas a seguir.

Nestes dias de exacerbação do politicamente correto, difusão e narrativas centradas em ideologias ultrapassadas e anacrônicas, embora mereça respeito quem realmente acredita no ideal de uma sociedade mais justa e solidária, lamenta-se que alguns acabam envolvidos por falsos líderes. Assim, a tal visão “particular” da autora, sobre as razões que conduziram ao impeachment da então “presidenta” Dilma Roussef, a prisão do ex-presidente Lula e a eleição de Jair Bolsonaro, me levam a concluir que a leitura da cineasta, referente aos recentes acontecimentos históricos no combate à corrupção no Brasil, soa como mais como ficcional do que real.

A cineasta Petra Costa, que milita nas fileiras da esquerda, é neta do fundador da Construtora Andrade Gutierrez, uma das empresas mais lembradas na Operação Lava Jato. Sinceramente, a princípio, não haveria um problema neste fato isolado. Entretanto, coincidentemente ou não, ela retrata o então juiz e atual ministro Sérgio Moro como um dos artífices do processo da destruição das conquistas democráticas do país, agindo de forma proposital para alijar seus heróis petistas, Dilma e Lula, do processo democrático.

Em sua interpretação dos fatos, a luta de classes está em curso, tal qual o manifesto Comunista de 1848 (isso mesmo, 1848, século XIX). Para ela, existe uma conspiração para impedir a ascensão ao poder da esquerda e que tudo que foi publicada na imprensa livre seria uma mera propaganda das elites para eleger Bolsonaro, representante de um vertiginoso processo de reedição do movimento militar de 1964. Convenhamos que esta conclusão caminha no sentido contrário do que a maioria da sociedade brasileira escolheu nas urnas e soa como paranoico ou até mesmo pueril, na melhor hipótese.

Na verdade, dentro desta bolha petista e socialista, enxergo um postulado dos que se dizem de esquerda, principalmente da chamada ala caviar, que se sente intelectualmente superior a todos aqueles que não endossam as suas crenças, tratando-os com desprezo e desdém. Muitos vivem propagando a preocupação com os menos favorecidos, mas desfrutam de benesses e ascensão social por meio da mesma política que demonizam, viajando de primeira classe para Dubai, como a ex-presidente Dilma fez recentemente, ou passando festa de fim de ano em Paris e Londres, e não na Venezuela ou Coréia do Norte, que tanto defendem.

A intenção deste artigo não é exatamente uma resenha crítica sobre o tal documentário. Sequer tenho conhecimento técnico ou artístico para tanto. Todavia, como estamos sim vivendo na plenitude do regime democrático, me permito a tecer impressões, também pessoais, sobre o filme em questão.

Indiscutivelmente, a autora demonstra muita familiaridade e proximidade com aqueles que tenta defender, o que ocasiona uma absoluta falta de distanciamento crítico, fundamental para que um documentarista possa construir um argumento com a isenção necessária. O problema é que, em nenhum momento, ela deixa isso claro para o espectador. Ela chega ao cumulo de retirar, digitalmente, as armas ao lado dos corpos, em de uma foto retratando a morte de dois guerrilheiros, em 1976. Um deles, é Pedro de Araújo Pomar, grande ídolo e herói da autora, que foi batizada Petra em sua homenagem. Creio que isto deveria ser explicado em algum momento.

Em suma, como brasileiro, não me sinto representado pelo documentário. Muito ao contrário. Ele é uma forma de propaganda negativa do país para atender a uma guerra cultural em curso, mediante as sucessivas derrotas políticas da esquerda, que não governa nos principais países do mundo. Fica patente a falta do entendimento básico de que a democracia contempla vitórias e derrotas nas urnas.

Cabe aos perdedores aceitar as regras do jogo e não fomentar críticas torpes ou tolas, torcendo para o país naufragar para provarem que estavam com a razão. A democracia não está em vertigem.  Para mim, isto é claríssimo, cristalino. Tanto quanto a impossibilidade de “estocar vento”. O próprio Lula lamenta, em uma das conversas com Petra, não ter  implementado o controle social da mídia. Que tipo de democracia seria essa?

Em um momento em que o Brasil tenta reconquistar a confiança do mundo, até para fomentar investimentos, para o bem do conjunto da sociedade, não creio que distorcer a realidade para tentar constranger o país no exterior seja o melhor caminho.

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