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Bárbara Silvestre: Que o vento te sopre este sussurro

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Bárbara Silvestre: Que o vento te sopre este sussurro

Que o vento te sopre este sussurro

Bárbara Silvestre

A Filosofia se constituiu a partir do estranhamento para com o mundo. Estranhamento possível pela observação dos fenômenos à nossa volta. Tais fenômenos foram (e são) observados, questionados e (poucas vezes) resolvidos ou concluídos. Essa é a estrutura da filosofia, mas o seu desenvolver se dá por um rigor filosófico, que resumidamente pode ser compreendido como o elemento essencial para que o intelectual não construa sua teoria sustentada em uma lógica rasa e falaciosa, muitas vezes baseadas em errôneas e falsas informações. Assim, um sistema argumentativo excepcionalmente elaborado é o que sustenta essa tão amada disciplina e, ao mesmo tempo, é o que a dificulta diversas vezes para a compreensão do senso comum. Entretanto, esse mesmo senso comum, que não possui a mesma exigência rigorosa da filosofia, carrega humildemente em suas costas, diversas sábias considerações também construídas a partir da observação dos fenômenos à nossa volta e do estranhamento para com o mundo. Entenda leitor, o senso comum que produz os sábios ditados populares não compete com a filosofia, pelo simples fato de não almejar o título de disciplina. Contudo, suas sábias e singelas observações podem e devem ser analisadas filosoficamente. Assim posto, analisaremos um ditado popular que muito me agrada: “Quanto mais vazia é a carroça, maior é o barulho que ela faz.” Tal conclusão surgiu, em algum momento da história da humanidade, pela observação e, não tão obvia comparação, do barulho produzido entre carroças que passavam carregadas e as carroças que passavam vazias. Mas o que nos cabe como moral da estória está na seguinte metáfora transmitida de geração para geração: assim como acontece com as carroças vazias em seus conteúdos, acontece com o ser humano; quanto mais alto ele gritar, esbravejar e impor as suas verdades, mais falsas, rasas e infundadas tais “verdades” tendem a ser. Observem, rigorosamente, a maior parte do conteúdo transmitido pela maioria dos atuais formadores de opinião em alguns jornais, poucos livros e muitas mídias digitais. Cheios de certezas e verdades, bravejam dogmaticamente pelos quatro quantos como a sociedade é e deve ser; em fórmulas mágicas entregam para os seus seguidores o conteúdo pronto de como eles devem agir, pensar e compreender o mundo que os rodeia. Ah, e se algum discípulo ousar questionar tais “verdades” ele será humilhado, escorraçado e cancelado; considerado indigno, limitado intelectualmente. Afinal, o objetivo é construir falaciosas certezas, e não dignas incertezas; criando um ambiente alienador que aceite como verdade o que é dito por esses grandes mestres barulhentos, de egos copiosos e miseráveis conteúdos. Com intelectualidade duvidosa, esses indivíduos podem ser analisados a partir da seguinte frase kantiana: “Avalia-se a inteligência de um indivíduo pela quantidade de incertezas que ele é capaz de suportar.” Particularmente, o extravagante barulho dessas carroças vazias me emudeceram; a alienação fantasiada de intelectualidade me entristeceu; e assim, dormi por meses seguidos na companhia do monstro ditatorial e castrador da criatividade e do ânimo. Mas assim como outro sábio ditado popular que afirma que “não há noite escura que dure para sempre”, estou hoje aqui escrevendo para você leitor, que não está à procura de fórmulas mágicas sobre como encarar o mundo a sua volta, muito menos da alienação dogmática de como formar as suas opiniões. Não ser barulhento não é sinônimo de silenciar. E eu não desejo que silenciemos. Pelo contrário, almejo que reflitamos e exercitemos, juntos, a nossa capacidade intelectiva, reagindo ao esbanjador barulho das carroças vazias com o soberano sussurro questionador da Filosofia, a poderosa consoladora de Boécio e de tantos outros sábios que, com almas inquietas, recusaram a alienação intelectual.

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