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Bárbara Silvestre: “Tende piedade de nós.”

Redação

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Bárbara Silvestre: “Tende piedade de nós.”

“Tende piedade de nós.”

Nunca fui muito adepta ao adjetivo iluminista “Era das Trevas” para significar a Idade Média. Talvez, por ser formada em Filosofia, reconheço a grande produção intelectual desse período. Afinal, como julgar por obscuro o período pelo qual nasceu os escritos de Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Guilherme de Ockham e Duns Escoto? Como não valorizar o árduo trabalho de copistas dos monges? Trabalho este que é o responsável pela propagação de grandes obras da intelectualidade, obras que não teríamos acesso se assim não tivesse sido. E até mesmo o Inferno de Dante, que por mais que seja aterrorizante, compõe, com a esperança do Purgatório e a salvação do Paraíso, a métrica perfeita da poesia, a viagem existencial de todo ser humano, discussões políticas, históricas e filosóficas. Entretanto, preciso assumir que existiu muitas trevas na Idade Média. Não podemos esquecer da seletiva elitização do conhecimento, das cruzadas e, muito menos, da ditadura da Igreja sustentada pelos terrores da Santa Inquisição: Galileu quase foi condenado à fogueira por sua teoria do heliocentrismo, sendo obrigado a assumir publicamente como falsa sua grande descoberta de que o Planeta Terra gira em torno no Sol; Giordano Bruno foi condenado por apoiar a visão copernicana; e até mesmo Roger Bacon, o Doctor Mirabilis da filosofia, frade franciscano, foi periodicamente perseguido e preso por defender o método empírico científico moderno. Acusado, inclusive, de bruxaria. Ah sim, leitor, como não mencionar a desumana perseguição a qualquer manifestação de uma mínima semente de liberdade feminina? Queimadas na fogueira, afogadas e torturadas, as mulheres na Idade Média acusadas de bruxaria compunham um show de horrores incentivado pela maldade de uma plateia sedenta por dor e sofrimento. O mais triste é que, século após século, essas trevas medievais perpetuam e hoje dançam entre nós, lamentáveis cidadãos modernos. O imperialismo do ódio e da burrice, regido pela hipocrisia da ira e da intolerância não me permite concluir nenhum tipo de afirmação que não seja: a Era das Trevas é o agora! A pandemia é um fato, uma realidade; a peste está à espreita e num ato de exaltação à burrice o achismo se impõe à pesquisa científica. Em nome de Deus, continuamos observando grandes atrocidades: vítima de incontáveis atos de estupro, desde os seis anos de idade, uma criança de dez anos portando uma gravidez de risco foi perseguida e novamente molestada, dessa vez psicologicamente, por um grupo religioso extremista ao exercer o seu direito ao aborto; uma pastora e deputada federal mandou assassinar o marido porque o divórcio não é bem visto aos olhos do Pai; e a intolerância religiosa se fez manchete no caso de uma mãe que perdeu, provisoriamente, a guarda da sua filha menor de idade para a avó materna tudo porque, por vontade própria, a jovem estava sendo iniciada em um ritual do Candomblé, religião de matriz africana, considerada pelas pequenas almas idólatras da ignorância, mas donas das verdades do mundo e além, como um culto ao satanás. O atabaque não pode falar a língua dos anjos, mas a maldade camuflada pelo recitar da bíblia na boca daqueles que têm na língua.
Deus e no coração o diabo muitas vezes não é sequer questionada. O summum bonum chora por essa obscuridade de alma e intelecto. Todo esse artigo poderia muito bem caber num conto de ficção ao gênero de Edgar Allan Poe. Mas não, esta é a condição da nossa Era. A verdadeira Era das Trevas que está colocando à prova o questionamento de Balzac acerca do que é mais horrível de se ver: corações secos ou crânios vazios?

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