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Após quase 40 anos de amizade, brasileiro cede túmulo da família para enterrar amigo argentino

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Após quase 40 anos de amizade, brasileiro cede túmulo da família para enterrar amigo argentino

Juan Carlos Antônio Siggia mudou-se para Sorocaba em 1979. Na cidade, conheceu Michel Facury, amigo que o ajudaria em diversos aspectos da vida

Um um fim de tarde do ano de 1997, Michel Facury saía de uma aula sobre cultura latino-americana na qual havia assistido ao filme “Evita”, que conta a história do Peronismo na Argentina. Na época, ele tinha 30 anos de idade, deixou a exibição e foi refletir sobre a aula na mesa de um bar chamado Quartel General, na Praça Coronel Fernando Prestes, em Sorocaba (SP).

Ao abrir uma garrafa de cerveja, Michel avistou um homem no balcão do estebelecimento gesticulando e conversando em voz alta com um sotaque espanhol. Era Juan Carlos Antônio Siggia, um argentino que morava no Brasil há um tempo.

Naquele bar, uma amizade que passaria por alegrias, viagens, conselhos, confusões jurídicas em consulados e dificuldades havia acabado de começar. Nenhum dos dois imaginava que, quase 40 anos depois, o brasileiro ajudaria o amigo uma última vez, mesmo sem ele saber ou ver. A boa ação transcendeu a vida.

“Enterrei Juan no túmulo da minha família. Para sempre ele terá um lugar para ficar e, mais uma vez, próximo de mim”, conta.

Pouco tempo antes, o argentino sofreu um AVC e, em decorrência das sequelas, não falava nem andava. Até o dia 8 de junho, morou em um abrigo para idosos, antes de pegar uma forte pneumonia e infecção urinária. O amigo, que o reconheceu pelo sotaque há 20 anos, lamenta: “o que mais me deixa triste é que ele não pôde mais falar. Agora ficou a história”, diz.

Michel e Juan relembram o passado por meio de fotografias (Foto: Matheus Fazolin/G1)

Michel e Juan relembram o passado por meio de fotografias (Foto: Matheus Fazolin/G1)

Michel Facury e Juan Carlos Siggia receberam a reportagem do G1 na Vila dos Velhinhos, na Zona Oeste de cidade, antes de Juan morrer. Michel estava sentado em um banco e conversava com o amigo sob a cadeira de rodas.

Apesar de não falar, Juan entendia tudo e respondia com sinais e murmúrios. O argentino se emocionava ao ver fotos antigas da família e de viagens feitas pelo Brasil. As mãos, com dificuldades de movimentos, tentavam carregar o álbum de fotografia e analisar as fotos com calma.

Já que Juan não conseguia se expressar através das palavras, a memória invejável de Michel Facury, professor de Geografia, trouxe as lembranças e detalhes de todos os momentos em que viveu com o amigo. A lanchonete em que tudo começou não existe mais, mas as lembranças estão mais vivas do que nunca.

“Juan acreditava que o filme estrelado pela diva pop Madonna era uma versão americanizada e maquiada do Peronismo – época importante para os argentinos – e, através dessa conversa, começou uma amizade que eu tinha certeza que duraria muito tempo”, afirma.

Jorge Facury, irmão de Michel, lembra que Juan chegou a conceder uma palestra na Universidade de Sorocaba (Uniso) para contar a versão argentina e “verídica” dos fatos históricos vividos por ele nos anos 40, 50 e 70. “Todos gostaram muito. Eu e Michel tiramos 10 por conta da palestra de Juan”, lembra Jorge.

Na época, Juan tinha 59 anos, falava “portunhol” e morava no sótão da lanchonete Quartel General. De acordo com Michel, era impossível ficar de pé naquele cômodo por conta da altura do teto. Lá havia apenas um colchão, forno elétrico e poucos utensílios que Juan conseguiu comprar.

O argentino prestava serviços a bares e passou grande parte do tempo fazendo bicos na Ótica Pazini, que também já não existe mais.

“Sozinho no Brasil, Juan sempre se virou sozinho. Conseguia comprar suas coisas com pequenos serviços prestados. Era uma pessoa cheia de amigos”, conta Michel.

Após morar no sótão do bar, Juan passou a viver em uma área nos fundos da ótica e, apesar de ser engenheiro por formação, Michel contou que Juan teve sua vida impactada pelos trabalhos, pois sempre morava onde prestava os serviços.

“Ele adorava cozinhar. Sua casa podia ser simples, mas fazia uma empanada de frango com molho que eu nunca comi igual. Que saudades do sabor argentino de suas comidas!”, lembra o amigo.

Michel conversa com Juan sobre histórias que viveram juntos (Foto: Kauanne Piedra/G1)

Michel conversa com Juan sobre histórias que viveram juntos (Foto: Kauanne Piedra/G1)

Após a falência da ótica, Juan recebeu um convite para ser caseiro de uma chácara onde hoje é uma área residencial do Central Parque. De acordo com Michel, um tempo depois de morar no local, Juan precisou encontrar uma nova casa, pois o dono do imóvel resolveu vendê-lo.

O argentino encontrou no bairro da Caputera uma oportunidade de trocar serviços de caseiro por moradia. “Muitas vezes chegava lá e não o encontrava. Procurava, procurava e só achava ele alguns minutos depois, em cima das árvores”, lembra Michel, aos risos.

Durante a entrevista ao G1, Michel relembrou como os encontros fortaleciam a amizade. “Nós conversávamos sobre diferentes assuntos. Vida pessoal, conselhos amorosos…tudo aquilo que a vida tem a oferecer e que se possa conversar nós conversávamos! Era uma amizade a nível de confidência”, afirma.

“Apesar de conversarmos muito, nunca consegui juntar as peças para entender os motivos que o trouxeram para Sorocaba”, lamenta.

Foto mostra Juan, Michel e um amigo durante conversa (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

Foto mostra Juan, Michel e um amigo durante conversa (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

Segundo Michel, uma conversa de anos atrás revelou que Juan havia sido proprietário de uma firma de engenheria na Argentina e, após encerrar sua atividades, restou uma dívida para a União. “Ele contou que preferiu pagar os funcionários e depois veio ao Brasil”, diz.

O pouco que se sabia sobre a história do argentino é que ele tinha uma filha e dois netos em Buenos Aires, mas, por conta de sua vinda ao Brasil, não teve contato com a família. Michel disse que Juan havia se divorciado antes de se aventurar no país.

O livro “Foi O Que Me Contaram”, de autoria de Jorge Facury, traz um relato sobre uma tarde de pescaria com seu pai em Mendoza, uma das poucas histórias que o argentino contou sobre a família.

Sossego

“Quero sossego, Michel. Quero ficar em paz”. Foram essas as palavras que Juan disse ao amigo Michel quando resolveu se instalar na Vila dos Velhinhos.

“Ele dizia que seria melhor para ele. Eu cheguei a oferecer uma casa para ele morar, mas ele não quis. Ele veio por livre e espontânea vontade”, relembra. “Precisei assinar um documento como responsável por ele, autorizando ele. Confesso que fiquei um pouco entristecido, parece que não gostava muito da ideia de ele morar aqui, mas ele se adaptou bem”, afirma.

Juan Carlos Antônio Siggia no pátio da Vila dos Velhinhos, em Sorocaba (Foto: Matheus Fazolin/G1)

Juan Carlos Antônio Siggia no pátio da Vila dos Velhinhos, em Sorocaba (Foto: Matheus Fazolin/G1)

Segundo Michel, com o tempo, outra moradora do asilo, Alaide Almeida, se tornou mais do que uma amiga para o argentino. “Ele proporcinou a ela algo que nunca tinha tido aqui, ele a deu vida! Passeavam juntos, davam risadas, eram parceiros”, lembra.

Aposentadoria

Após diversas idas a Buenos Aires, capital da Argentina, Michel foi surpreendido por um pedido do amigo em 2010. “Segundo ele, a hora da aposentadoria tinha chegado”, diz.

Durante uma das viagens do aposentado à Argentina, uma funcionária do ANSES, sistema de seguridade social do país, disse que seria bom o engenheiro não permanecer no local por conta de uma dívida ativa. Para Michel, foi a confirmação do motivo da vinda do amigo ao Brasil.

Durante o processo, Juan acabou entrando em uma confusão judicial entre os consulados brasileiro e argentino, Previdência Social e outros órgãos por conta de documentação e passado financeiro no território. Segundo Michel, demorou até Juan conseguir o que era seu por direito.

Juan se emociona durante entrevista de Michel ao G1 (Foto: Kauanne Piedra/G1)

Juan se emociona durante entrevista de Michel ao G1 (Foto: Kauanne Piedra/G1)

“Inicialmente, a aposentadoria era depositada em um banco, mas, em 2011, a presidente Cristina Kirchner assinou um decreto que proibia o pagamento de benefícios para aposentados que moravam fora do país. Foi triste”, lamenta.

Michel contou ao G1 que a vida de Juan ficou complicada e, por isso, a cada dois meses, o amigo ia a Puerto Iguazu, na Argentina, para retirar o dinheiro. “Ele tinha que ir sempre ao Banco de la Nación Argentina para sacar o dinheiro antes que fosse desvalorizado. Estava muito estável o valor do peso”, diz.

A última viagem

Por volta das 20h da noite, após uma semana que Juan havia viajado para buscar sua aposentadoria, Michel recebeu uma ligação do Consulado Brasileiro. “O senhor conhece Juan Carlos Siggia?”, perguntou um funcionário.

Michel contou que o amigo viajou cerca de 15 dias, após o fim da Copa do Mundo de 2014. O destino era, novamente, Puerto Iguazu, cidade que faz fronteira com Foz do Iguaçu (PR). E o motivo, o mesmo dos últimos dois anos: sua aposentadoria e fonte de sobrevivência.

Ele recorda que o amigo não andava tomando os remédios de forma regular. Alguns dias antes de fazer a viagem, Juan havia feito uma visita a Michel e, juntos, tomaram uma garrafa de vinho e tiveram sua última conversa. A amizade, a partir dali, tomaria outros rumos. “Michel, voy a Argentina mañana”, disse Juan avisando o amigo sobre a viagem.

“Todas as vezes ele ficava na mesma pousada e o dono, que já o conhecia, percebeu que o Juan não havia levantado naquela manhã. Foi quando o rapaz abriu a porta e encontrou Juan caído no chão”, relembra.

Juan foi internado em Foz do Iguaçu e recebeu todos os socorros necessários. “O hospital percebeu que todos os documentos daquele paciente eram argentinos e, por isso, acionaram o consulado do país. Eles [o consulado] queriam levá-lo para uma casa de repouso em Buenos Aires, mas, por sorte, resolveram procurar o contato de algum familiar e encontraram meu número”, conta.

Michel lembra sua reação ao ser informado sobre o possível destino do amigo.

“Eu disse que ele não poderia ser levado a lugar algum contra sua vontade. Imediatamente, peguei todos os documentos, declarações, cartas e amigos próximos e fui a Foz do Iguaçu buscá-lo. Não pensei duas vezes”, diz.

Ao chegar na cidade, Michel foi levado ao hospital onde o amigo estava internado há cerca de cinco dias.

“A enfermeira ia chamá-lo para conversarmos, mas a consulesa interveio e disse em espanhol ‘Não, quem vai chamar é ele’ e apontou para mim”, lembra Michel, dizendo que os funcionários do consulado queriam confirmar se os dois realmente se conheciam.

“Quando cheguei no quarto, Juan estava dormindo. Fiz um carinho em sua cabeça enquanto ele repousava. Assim que minha mão tocou seu corpo, ele abriu os olhos, me reconheceu e começou a chorar e resmungar, pois já não falava mais. Foi quando a consulesa disse ‘Si, tiene afecto por él’ (Sim, existe afeto entre eles).”

Após a situação, o Consulado Argentino entendeu que a vontade de Juan era voltar a Sorocaba.

Michel orienta Juan a usar a cadeira de rodas motorizada (Foto: Matheus Fazolin/G1)

Michel orienta Juan a usar a cadeira de rodas motorizada (Foto: Matheus Fazolin/G1)

As sequelas do AVC acompanharam Juan até seus últimos dias. Sem fala e com a parte direita de seu corpo atrofiado, o argentino precisava de ajuda para se locomover, comer, tomar banho e outros cuidados especiais.

“Fiquei com medo de perdê-lo na Argentina em 2014”, diz o professor de Geografia.

Michel iniciou um processo para tentar levar Juan para Sorocaba em um transporte especial. O argentino viu sua vida depender, novamente, da Justiça.

“Falei no CREAS, órgão que dá assistência ao idoso em Foz do Iguaçu, com o hospital em que ele estava internado, com a Prefeitura de Sorocaba e a Defensoria Pública, mas ninguém podia ajudar. Até que procurei o Ministério Público”, lembra.

O professor precisou escrever uma carta ao promotor. “Acredito que o relato que escrevi, de próprio pinho, tenha emocionado o promotor Jorge Marum. Ele acionou a Justiça em Foz do Iguaçu e determinou a volta imediata de Juan a Sorocaba”, lembra.

Juan, que completaria 80 anos em agosto, ganhou uma cadeira de rodas motorizada e, depois de anos dependendo de terceiros, pôde se locomover sozinho, pelo menos por um tempo.

Para Michel, hoje com 51 anos, a rivalidade entre Brasil e Argentina não deve sair dos estádios. “Isso é tudo uma brincadeira a nível de futebol, brasileiros e argentinos são irmãos, devem se ajudar”, brinca. Juan concorda com as afirmações feitas pelo amigo e ri em diversos momentos.

A lição da amizade que durou quase quatro décadas é de carinho e afeto, afirma o professor de Geografia. “Uma grande amizade nasce de empatia, do querer bem, de estar perto e de querer conversar. A amizade tem o mesmo valor de um amor recíproco.”

“Em uma grande amizade, a gente sempre fala a mesma língua, independente do que aconteça”, diz Michel, embargado em lembranças e emoções.

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