Tarifaço

Governo brasileiro decide não discursar em audiências dos EUA sobre tarifaço contra produtos do país

Embaixada em Washington enviará apenas observadores; Brasília aposta em negociações técnicas e de alto nível para reverter medida de Trump

Com mais de 500 novos mercados, Brasil busca diversificar suas exportações enquanto enfrenta tarifas americanas - Imagem: Reprodução/Saul Loeb/AFP

Letícia Sales Publicado em 06/07/2026, às 11h25

O governo brasileiro optou por não se inscrever para discursar nas audiências públicas que começam nesta segunda-feira (6) nos Estados Unidos sobre o tarifaço proposto pela administração de Donald Trump contra produtos brasileiros exportados ao mercado americano. Ainda assim, a embaixada brasileira em Washington enviará representantes na condição de observadores, para acompanhar de perto os argumentos apresentados durante o evento.

As informações são do Ministério das Relações Exteriores. Segundo o entendimento do governo, as audiências públicas não representam o espaço adequado para uma negociação efetiva. A avaliação é que as conversas técnicas e de alto nível — que já vêm ocorrendo nas últimas semanas e têm continuidade prevista para os próximos dias — são o canal mais indicado para tratar do tema.

Bolsonaro e Figueiredo confirmam participação

Enquanto o governo optou por não se manifestar, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, e o influenciador político Paulo Figueiredo se inscreveram para discursar durante as audiências. Flávio Bolsonaro deve abrir os trabalhos do segundo dia do evento.

A participação na audiência pública, promovida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) — órgão responsável por formular e negociar a política comercial americana —, está aberta a qualquer interessado que se inscreva previamente.

Negociações em andamento

Nos bastidores diplomáticos, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Marcio Elias Rosa, conversou na semana passada com o representante do escritório comercial dos EUA, Jamieson Greer. Após o encontro, Rosa informou que novas rodadas de conversas já estão previstas para os próximos dias.

Durante essas tratativas, o governo brasileiro apresentou uma proposta de encaminhamento para os seis pontos levantados pelos Estados Unidos, mas ainda aguarda uma resposta formal do lado americano.

O prazo para o fechamento de um acordo se encerra em 15 de julho. Diante do cronograma apertado, o próprio governo brasileiro reconhece que corre contra o tempo para alcançar um entendimento com Washington, apresentando dados sobre a relação comercial bilateral e sobre o combate ao desmatamento como parte da argumentação.

Busca por novos mercados

Na manhã desta segunda-feira (6), o ministro do Empreendedorismo, Paulo Henrique Pereira, defendeu a manutenção da estratégia de articulação direta com os americanos como caminho mais eficaz. "A solução para isso vocês sabem, é o que o governo tem feito. Primeiro, conversar, negociar e a liderança importante do ministro Márcio Elias Rosa, do vice-presidente Geraldo Alckmin demonstrar que essa medida inadequada fará mal a economia brasileira e fará mal também a economia norte-americana", afirmou.

O ministro também destacou a importância de diversificar mercados neste momento. "O Brasil tem mais de 500 novos mercados para o seu segmento econômico ao longo dos últimos três anos e meio. E nós vamos continuar. As empresas médias e pequenas brasileiras têm capacidade de exportar. Felizmente, essa agressão vem num momento em que o Brasil realiza um acordo histórico com a União Europeia, demonstrando a força do Brasil no comércio internacional", completou.

Avaliação nos bastidores

Entre integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty, a avaliação é de que a recomendação feita pelo USTR tem caráter político e desconsidera os argumentos técnicos apresentados pelos negociadores brasileiros ao longo do último ano. Como exemplo, interlocutores do governo citam que os documentos relativos ao início da investigação comercial, de julho de 2025, e à recomendação pelas tarifas, de junho de 2026, seriam "praticamente iguais".

Por isso, sob reserva, integrantes do governo afirmam não acreditar em uma reversão completa do tarifaço, apostando apenas na possibilidade de uma redução da medida ou no anúncio de exceções pontuais.

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