Investigação

Ex-senador Fernando Bezerra e filhos viram alvo da operação da PF

Investigação aponta suspeita de desvio de recursos públicos por meio de emendas parlamentares

Empresa de engenharia ligada ao grupo recebeu contratos milionários. - Imagem: Reprodução/Agencia Senado.

Erika Osti Publicado em 25/02/2026, às 14h15

A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira (25) a Operação Vassalos para apurar um suposto esquema de desvio de recursos públicos por meio de emendas parlamentares que teria beneficiado a empresa Liga Engenharia com contratos milionários. A ação, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, teve como alvos integrantes da família Coelho e cumpriu 42 mandados de busca e apreensão em Pernambuco, Bahia, São Paulo, Goiás e no Distrito Federal.

Segundo a investigação, o ex-senador Fernando Bezerra Coelho, o deputado federal Fernando Coelho Filho e o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho estão entre os investigados. A Polícia Federal suspeita da atuação de uma organização formada por agentes públicos e empresários que teriam operado para direcionar verbas federais a determinados municípios e, na etapa seguinte, favorecer uma empresa ligada ao grupo em processos licitatórios.

No centro da apuração está a Liga Engenharia Ltda., que acumulou mais de R$ 100 milhões em contratos de pavimentação em Petrolina desde 2017. Dados reunidos pela PF indicam que, somados os empenhos, a empresa recebeu cerca de R$ 190 milhões em recursos públicos vinculados ao esquema investigado.

Para os investigadores, a trajetória da empresa foge ao padrão esperado em contratações públicas. Em 2017, a Liga aparecia apenas como a 27ª maior destinatária de recursos municipais. Ao longo dos anos, avançou rapidamente até se tornar, em 2024, a principal fornecedora da prefeitura. Na avaliação da PF, há indícios de favorecimento e possível direcionamento de contratos.

A apuração também destaca que a empresa não possuía histórico de atuação em Petrolina antes da gestão de Miguel Coelho e não prestou serviços para outros municípios pernambucanos, o que reforçou as suspeitas. A família Coelho tem forte influência política em Petrolina, no Sertão de Pernambuco, berço eleitoral do grupo e base administrativa das gestões sob análise.

Como funcionaria o esquema

De acordo com a Polícia Federal, recursos provenientes de emendas parlamentares e de Termos de Execução Descentralizada eram direcionados tanto à Prefeitura de Petrolina quanto à 3ª Superintendência Regional da Codevasf. O órgão federal firmaria convênios e viabilizaria a execução das obras, criando condições para que a Liga Engenharia fosse contratada.

Os investigadores apontam ainda vínculos familiares entre sócios da empresa e pessoas próximas ao grupo político. Um dos sócios da Liga é irmão da esposa de um primo de Miguel Coelho e de Fernando Coelho Filho.

A atuação da Codevasf também entrou no radar. O então superintendente regional Aurivalter Cordeiro Pereira da Silva, ex-assessor de Fernando Bezerra Coelho, é apontado como possível operador político. Mensagens de WhatsApp apreendidas indicariam prestação periódica de contas aos parlamentares sobre convênios, contratos e liberações de recursos.

Em uma conversa interceptada, o então ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, afirmou ao ex-senador que “Pernambuco é do Senhor, Senador”, ao tratar da permanência de um indicado na superintendência.

Irregularidades em licitações

Auditorias do Tribunal de Contas da União e da Controladoria-Geral da União identificaram problemas em licitações vencidas pela Liga Engenharia. Em um dos pregões analisados, 18 empresas foram desclassificadas por motivos considerados banais, enquanto a Liga, mesmo com proposta mais cara, acabou vencedora.

O TCU classificou o episódio como exemplo de formalismo exacerbado e apontou violação aos princípios da economicidade e da busca pela proposta mais vantajosa.

Suspeita de lavagem de dinheiro

A PF também investiga o uso de estruturas societárias para ocultar patrimônio, incluindo Sociedades em Conta de Participação, modalidade que permite a existência de sócios ocultos.

Outro foco envolve o Posto Petrolina Ltda., que já pertenceu à esposa de Miguel Coelho e hoje está em nome do sogro. O estabelecimento recebeu repasses milionários da Liga Engenharia. Dados bancários mostram que, conforme aumentavam os pagamentos da prefeitura à empresa, também cresceram as transferências da Liga ao posto, o que levanta suspeitas de lavagem de dinheiro.

A criação da empresa Vale Soluções e Consultoria por Fernando Bezerra Coelho, dias antes do fim de seu mandato no Senado, também é analisada devido a movimentações financeiras consideradas atípicas.

A defesa de Fernando Bezerra Coelho e de Fernando Coelho Filho informou em nota que ainda não teve acesso aos autos e que irá se manifestar após conhecer a decisão judicial. A reportagem tenta contato com os demais citados.

A Polícia Federal afirma que o material apreendido nas buscas será periciado e poderá embasar novas fases da Operação Vassalos, que investiga possíveis crimes de peculato, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraude em licitações. 

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